Leonardo Wexell Severo
Após ser vitimado por uma explosão durante a Primeira Guerra Mundial, o
soldado Joe Bonham acorda, mutilado, num leito de hospital, e tenta se
comunicar em busca de alguma informação sobre a sua situação. Aos poucos - sem
braços, pernas, olhos, orelhas, dentes, maxilar e língua - vai tomando
consciência, descobrindo que o que restou de seu corpo praticamente lhe
impossibilita o diálogo, reduzido que está à mera experiência do complexo
militar estadunidense.
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Cena do filme Johnny vai à guerra: crítica demolidora |
Batendo a cabeça na cama, busca por meio do código morse alertar que não
é apenas um “pedaço de carne” e quer ver atendido um único desejo: ser exposto
para mostrar a todos o real significado da palavra guerra. Condenado ao
silêncio perpétuo, sem a liberdade de expressão para alertar sobre o circo de
horrores do qual se vê prisioneiro - sustenta o soldado coisificado - a vida
não teria sentido.
Enquanto a agonia da realidade pulsa na tela em preto e branco, a
narrativa do que foi o jovem – seus sonhos e devaneios – nos perturbam em cores
vivas com a cadência de um monólogo interior. “Johnny vai à guerra”, do
escritor e roteirista estadunidense Dalton Trumbo, uma das tantas vítimas da
perseguição do fascismo macarthista, desmonta a máquina de guerra e suas
mentiras.
“Senil imprensa infantil” - como Marx caracterizou um dos tantos jornais
de seu tempo -, usada para deletar nossa memória, a velha mídia tenta, pela
repetição à exaustão de canções de ninar, adormecer nossa consciência. Apóstola
da mentira, sobrevive do caldo da incultura e maniqueísmo de suas Globos e
Vejas, temendo a democratização da comunicação como um vampiro treme diante da
luz.
As recentes declarações do Ministério das Comunicações servem a esta
“liberdade do privilégio” e nos fazem refletir sobre o alerta do escritor
moçambicano Mia Couto: “entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença
entre um tropeço e uma trapaça”.
O secretário executivo de dito balcão dos barões da mídia e das teles
alega que “em ano pré-eleitoral” – quem dirá no eleitoral, que no Brasil é de
dois em dois anos - não seria adequado trazer à tona o debate sobre a
regulamentação do setor. Talvez porque afugentaria financiadores tão
prestativos de algumas candidaturas amestradas. De quebra, para não deixar
qualquer margem de dúvida, o Ministério anuncia R$ 60 bilhões em isenções para
vitaminar as empresas de telecomunicações – quase todas estrangeiras –
colocando uma pá de cal na Telebrás e no Plano Nacional de Banda Larga (PNBL)
proposto pelo governo Lula.
A campanha que o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
(FNDC), entidades populares e movimentos sociais coloca nas ruas exige um novo
marco regulatório para o setor, alertando, dialogando e mobilizando a sociedade
contra o inconstitucional oligopólio midiático, que se crê invulnerável e
inatingível.
Felizmente, apesar da ausência de apoio governamental, a mídia
alternativa cresce, espraia consciências e vem fortalecendo a estratégica
iniciativa do FNDC. E a bela canção começa a unir vozes e a incomodar a
orquestra de cifrões e obediências.
Contra os que prostituem a verdade e acreditam que assim será para todo
o sempre, é bom lembrar o general imperialista – tão bem ridicularizado por
Eduardo Galeano -, que se media ao despertar e a cada dia se achava mais alto.
Até que uma bala interrompeu seu crescimento.
Que assim seja.
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