Leonardo Severo e Vanessa Silva, de Caracas
Ao som do cantor e compositor Ali Primera, multidão
recebe o “comandante da revolução bolivariana”
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Multidão recepcionou o comandante da revolução bolivariana |
Aos poucos vão chegando. Os sorrisos brotam e a
emoção toma conta em um êxtase coletivo no populoso e revolucionário bairro da
periferia de Caracas, no 23 de Enero. O sentimento de irmandade e de
auto-confiança vai cativando, deixando impregnada cada flor ostentada como
tributo ao comandante que semeou programas sociais, por aqui chamados “missões”.
Sorriso confiante, com brincos estampando a figura
de Chávez, Yeisa Rodriguez deu seu primeiro voto ao presidente. “Graças ao meu
comandante, este país agora é outro. O programa de inclusão universitária nos
abriu portas. Progredir não é mais um sonho, e sim uma realidade”. Sua mãe lhe
impulsionou os primeiros passos no chavismo, reforçado pelos substanciais investimentos
realizados pelo Estado venezuelano na área social que lhe possibilitaram entrar
na faculdade (o país é hoje o quinto em número de matrículas universitárias no
mundo).
“Pela vida, pelo amor, que de teu voto nasça uma
flor”, diz o cartaz segurado por uma jovem. Ao fundo, a música do cantor e
compositor Ali Primera, ícone de várias gerações de venezuelanos que se
levantaram pela redenção da Pátria, impregna o ambiente: “Busquem o sol
maravilhoso da libertação”. A mensagem ecoa. Reverbera. Nos comove por dentro.
Um refrão que viola a cartilha dos neoliberais, e que embala um governo que está
utilizando o lado petrolífero que banha o país para impulsionar o
desenvolvimento com justiça social.
Um cântico que é um chamado à luta, à negação do
individualismo exacerbado, da lógica do agachamento às determinações do FMI e
do Banco Mundial, do servilismo ao sistema financeiro e às transnacionais. Um
hino à solidariedade, ao humanismo e ao latino-americanismo, valores que se
confrontam a tudo o que significa a candidatura do oposicionista Capriles.
No 23 de janeiro, destaca Gertrudes Fuentes, que
levou os netos para votar com ela – todos exibiam o mindinho manchado de tinta,
como se tivessem, também eles, votado – temos diversas razões para votar em
Chávez. “Temos muitas missões aqui: a missão Mercal [que garante alimentos a
preços acessíveis]; a Missão Sucre [programa educacional]; a missão Amor Maior
[que garante aposentadoria a idosos independentemente de terem ou não comprovada
sua condição de trabalhadores]; a missão Vivienda [programa que neste ano já entregou
90% das 350 mil moradias previstas para 2012]; Madres del Barrio [para acabar
com a pobreza extrema no país], Missão Cultura e Casa Equipada [para que
pessoas com baixa renda possa equipar suas casas].
Emocionada, não deixou de declarar o voto. “Por 14
anos votamos no Chávez. Há 13 anos ele vem aqui votar e o povo o espera. Sabemos
que ele vai ganhar porque outro presidente como ele não vamos ter nunca mais.
Ele é um homem muito bom e não tanto pelo que dá a uma pessoa, mas pelo que dá
ao povo, que sempre esteve miserável de tudo. Ele deve seguir sendo o
presidente da Venezuela. A vida será muito melhor para todos”.
Deixando de lado o batalhão de jornalistas, fotógrafos
e cinegrafistas que aguardava o presidente na Escola Técnica Robinsoniana
Manoel Fajardo, subimos a montanha um pouco mais. Bem próximos a um grande conjunto
habitacional, vários senhores aposentados degustavam sua cervejinha Polar. Identificados
como brasileiros, chamados de “amigos de Lula”, rapidamente ganhamos nossas primeiras
cervejas – embora em meio à lei seca – bem gelada. Logo mais uns salgadinhos
para acompanhar. Na roda, com exceção de um senhor que votou por Capriles,
todos os demais eram chavistas.
Morador do bairro desde os anos 1970, Hernan
Hernandez, destacou que “Chávez recuperou nossa soberania e dignidade”. “Não
somos mais quintal dos Estados Unidos, somos gente e não animais. Temos agora
direitos, princípios, normas e leis para obedecer. Isso não existia. Chávez e
Lula são dois homens que precisamos respeitar, pois lutaram por um país livre”,
declarou.
“Aqui ninguém é mais do que ninguém, o povo é
soberano”, emendou Jose Alejandro Mosqueda, apontando para o posto de saúde em
frente, onde uma médica cubana presta atendimento “com muita atenção humana e
excelente qualidade técnica”.
Único oposicionista da turma, René Alias Nene
declarou seu voto na oposição por achar, “como diz a televisão, que o governo
deveria investir mais no próprio país, antes de sair doando petróleo para a
América Latina”. O discurso xenófobo e anti-integração de Capriles é reforçado
pelos grandes conglomerados privados de comunicação, que acusam o governo de “regalar”
petróleo a países como Bolívia, Cuba, Nicarágua e Uruguai. “René repete o que
não é verdade. O que Chávez fez foi investir na integração com relações respeitosas,
de reciprocidade, de solidariedade. Na verdade, a direita não quer a nossa
unidade”, enfatizou Hernan Hernandez, garantindo uma nova rodada de cerveja aos
“hermanos brasileños”.
Na caminhada, algo inusitado, deparamo-nos com um estudante
de medicina morador do bairro já no sexto ano da universidade. Não por acaso, o
jovem aponta como principal êxito da revolução bolivariana os avanços na educação.
Acompanhado pela mãe orgulhosa, afirma que “na Venezuela tínhamos grandes
índices de analfabetismo e agora não existem analfabetos. Também a Missão
Vivenda é muito importante para a população. Antes, era muito deplorável”.
Questionado sobre o futuro, é taxativo: “continuarei aqui e vou trabalhar na
comunidade”. Demonstrando que interiorizou os valores da medicina cubana –
expressados por seus mestres vindos da ilha - conclui que para ser médico, [não basta
somente atender as pessoas, mas atender totalmente a comunidade. Porque ao resolver
os conflitos sociais, cura-se o ser humano].
Finalmente, chega o comandante, consumando a festa. Em
meio a bandeiras venezuelanas, cartazes de Bolívar e grandes pichações exaltando
Marx e a Comuna de Paris, Chávez registra seu voto e em seguida, exalta a reafirmação
da democracia. Acompanhado pela ex-senadora colombiana e lutadora pela paz,
Piedad Córdoba; pela líder indigenista guatemalteca, Rigoberta Menchú e o ator
estadunidense, Danny Glover, o presidente disse ter a certeza de que “os
líderes de todos os setores [da situação e da oposição] estarão à altura da
lição que está dando o povo venezuelano. Como disse Jimmy Carter, esse é o
melhor sistema do mundo. Nossa América amadureceu” E ressaltando a importância
da integração latino-americana, pontuou: “estamos fazendo um chamado para a
consolidação como uma zona de paz com a Unasul e a Celac. Estou muito feliz
neste dia de paz, de festa e democracia”.
As urnas começam a fechar às 18 horas (19h30 horário
de Brasília) e não há pesquisa de boca de urna. Os resultados só são revelados
quando não é mais possível qualquer reversão.
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