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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Tucanos festejam primeira privataria federal realizada depois de 9 anos


BNDES vai bancar 80% dos gastos de grupos que levaram Brasília, Cumbica e Viracopos 

Apesar de ser um erro e um acontecimento lastimável para o país, o leilão de privatização dos aeroportos de Guarulhos, Brasília e Viracopos tem algo de cômico. Talvez seja aquele fenômeno, evocado por um pensador alemão, de que aqueles que insistem em repetir uma tragédia, acabam inevitavelmente por encenar uma comédia.

O que dizer do ministro da Secretaria de Aviação Civil, Wagner Bittencourt, depois de bater o martelo, numa imitação ridícula do malfadado José Serra, gabando-se de que Guarulhos teve um “ágio” de 373,5%; Viracopos, de 159,7%; e Brasília, de 673,3%? Segundo o ministro, isso prova que “o Brasil é um país em que os investimentos são seguros e rentáveis. Os 11 consórcios que se habilitaram foram assertivos nas suas propostas, o que demonstra coragem”.

Por aí se vê o conceito de “coragem” desse ministro. A única coisa que esse ágio descabelado prova é que o preço do patrimônio leiloado era uma merreca – ou tem alguém, principalmente monopólios, que compraria algo por 673,3% a mais do que aquilo que realmente vale?

Com o governo doando patrimônio, não há como o “investimento” não ser “seguro e rentável”, até porque os “investidores” não vão pagar o lance que deram no leilão com o seu dinheiro - e muito menos os supostos investimentos futuros, que serão feitos com o dinheiro do BNDES.

Sinceramente, leitores, é cômico ver ou ouvir alguns garantindo que o governo “arrecadou” R$ 24,5 bilhões pelos três aeroportos leiloados. Se fosse verdade, seria um absurdo – não somente porque essa quantia é irrisória por três dos principais aeroportos do país; não somente porque há questões que não dependem do preço, mas do interesse nacional; e não somente porque colocar operadoras estrangeiras nos aeroportos, quando o país tem uma das administradoras de aeroportos mais bem sucedidas do mundo (no ranking internacional, a Infraero é a segunda melhor companhia do planeta nesse ramo), parece coisa do capitão Schetino, aquele bravo lobo do mar que fazia piruetas nos navios turísticos italianos.

Porém, além disso, o governo não “arrecadou” nada pelos três aeroportos, onde passam 30% dos passageiros de avião, 57% da carga aérea e 19% das aeronaves no país (dados da ANAC, como, aliás, todos os citados neste artigo).

PRESTAÇÕES

É verdade que pretende arrecadar – mas só nas próximas três décadas. Pois, o pagamento do lance feito no leilão será parcelado ao longo do tempo da concessão, a partir de 2013 – ou seja, os açambarcadores pagarão o lance que deram no leilão com a receita que tirarem dos aeroportos, isto é, dos usuários, durante os próximos 20 a 30 anos.

Assim não tem como o “investimento” não ser “seguro e rentável”, com parcelas bastante módicas e a perder de vista, corrigidas apenas pelo IPCA – portanto, muito mais vantajosas do que aquelas que Estados e municípios pagam pela “dívida federalizada”.

O grupo que levou Viracopos - segundo maior terminal de cargas do país, detentor de um terço do comércio exterior brasileiro por via aérea, com um aumento de 823,6% no tráfego de passageiros entre 2005 e 2011 -  pagará R$ 126,6 milhões durante 30 anos.

A quantia é tão pequena, em termos de receita, que tivemos dificuldade em encontrar uma comparação que permitisse ao leitor ter uma ideia. Em relação à receita total do governo, prevista para 2012, isso significa 0,005% - mas o governo só irá receber essa portentosa quantia a partir de 2013.

O grupo que levou o aeroporto de Brasília - terceiro maior em movimentação de aeronaves e quarto em número de passageiros - pagará R$ 180 milhões durante 25 anos. O aeroporto da capital do país, doravante será operado pela Corporación América, que os argentinos mal suportam em seu país (o presidente do grupo, Ernesto Gutiérrez, explicou os atrasos e problemas de segurança dos aeroportos argentinos com a seguinte frase: “Outro dia, em Miami, fiquei na fila por duas horas e meia”. Portanto, ter filas desse tamanho deve ser o suprassumo da modernidade).

No entanto, o pior é que o grupo que levou Guarulhos - maior e mais lucrativo aeroporto do país, que teve em 2011 um movimento de 30 milhões de passageiros, 358 milhões de toneladas de carga e mais de 250 mil aeronaves pousando ou decolando - irá pagar R$ 810 milhões durante 20 anos.

A operadora de Guarulhos será a estatal sul-africana Airports Company South Africa (ACSA). Por que o aeroporto de Guarulhos não pode ser operado por uma estatal brasileira, mas pode ser operado por uma estatal sul-africana, com muito menos experiência no setor?

TRISTE

Quanto aos “investimentos” propalados pelo ministro para expansão dos aeroportos, o BNDES financiará 80% deles e “90% dos itens financiáveis”. Resta saber por que não foi concedido financiamento semelhante à Infraero, embora a resposta seja óbvia: porque queriam privatizar os aeroportos.

Com isso, deixamos a parte cômica e entramos na parte triste do negócio: os tucanos – e justamente aqueles que saíram com fama de gatunos da privatização, Mendonção dos Mendoncinhas, Elena Lalau, etc. - festejaram a privatização dos aeroportos. Não é para menos: o segundo turno da última campanha eleitoral foi decidido, precisamente, entre quem era a favor da privatização e quem era contra. É claro que os tucanos iam ficar mais assanhados do que hiena quando vê carniça, diante de uma privatização realizada por quem se elegeu denunciando as privatizações.
Nem por isso o governo Dilma é igual ao governo Fernando Henrique. Talvez esta seja a razão de certos repetecos de outra época parecerem tão cômicos. Mas, evidentemente, foi cometido um erro, e não pequeno. Porque, ao contrário dos governos, nada é mais parecido com uma privatização do que outra privatização.
Acima, enfatizamos os aspectos de subestimação do valor do patrimônio – e poderíamos também dizer que a Infraero, sem poder dar palpite na administração, entrará nas sociedades de propósito específico (SPEs) de cada aeroporto com 49% do capital somente para diminuir ainda mais o dinheiro que dispenderão os novos “sócios”; ou que colocar fundos públicos de pensões nos consórcios, a la Ricardo Sérgio, tem o mesmo objetivo.

Entretanto, a questão é que por dinheiro algum seria justa essa privatização. Na verdade, há patrimônios que não têm preço, não são redutíveis a um valor monetário. Mas não é à toa que houve tão tremenda subestimação, a ponto de aparecer quem oferecesse mais de cinco vezes o preço estabelecido.

O problema é que privatização é assim - ou não é. Em suma, não existe outra forma de privatizar um bem coletivo importante que não seja entregando-o através de preços ridículos. Nenhum açambarcador vai comprar algo por um preço decente ou, digamos, justo - mas não é só por isso.
A essência da questão é que privatização de algo estratégico é sempre um roubo - e não apenas porque sempre aparece algum esperto para comer as migalhas milionárias.

A questão mais importante é que, na privatização, a propriedade pública, a propriedade da população, a propriedade de quem quase que só tem essa propriedade, é  roubada dos seus proprietários. Algo que o povo construiu com o seu esforço, com o seu trabalho, com o seu dinheiro, e - se nos permitem os leitores uma síntese - com o seu sangue, é entregue a alguns negocistas e oportunistas, de preferência, estrangeiros. Fora isso, não existe privatização, independente, inclusive, das intenções - aquelas com as quais está pavimentado o caminho do Inferno.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

“Dilma, eu não me engano, privatizar é coisa de tucano”, entoam manifestantes em frente à Bovespa


CUT, CMP, CGTB, Sindicatos e partidos populares se somaram no ato contra a privatização dos aeroportos e em defesa do patrimônio público

“Dilma, eu não me engano, privatizar é coisa de tucano”, entoaram nesta segunda-feira (6) manifestantes concentrados em frente à Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), contrários ao processo de privatização dos aeroportos.

O protesto reuniu militantes do Sindicato Nacional dos Aeroportuários (SINA), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central de Movimentos Populares (CMP), Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Partido dos Trabalhadores (PT) e Partido Pátria Livre (PPL), que se pronunciaram contra a entrega do patrimônio público nacional. A privatização dos aeroportos de Cumbica, em Guarulhos, de Viracopos, em Campinas, e Juscelino Kubitschek, em Brasília, que juntos respondem por 30% da movimentação dos passageiros, 57% da carga e 19% das aeronaves do sistema brasileiro foi denunciada como um “crime de lesa-Pátria”.

“É preciso falar o português claro, pois não tem sentido nenhum dar dinheiro público para os estrangeiros virem tomar o que é nosso. Infelizmente é o patrimônio do Brasil que está sendo entregue pelo governo que nós ajudamos eleger. É a pauta dos derrotados, vindo com força”, denunciou Francisco Lemos, presidente do SINA. Lemos lembrou que primeiro o governo disse que não havia dinheiro para modernizar os aeroportos diante da urgência da Copa do Mundo - e que era preciso garantir a participação estrangeira no leilão. Depois, o BNDES foi acionado para financiar a desnacionalização, o que é totalmente absurdo.

Como sintetizou o secretário de Administração e Finanças da CUT Nacional, Vagner Freitas, “a privatização dos aeroportos representa um descarrilhamento do governo”. “A proposta neoliberal de sucateamento do patrimônio público e abertura ao capital internacional foi derrotada nas urnas, pois todos sabemos o que significou a privatização da telefonia, da energia e da siderurgia. Neste momento em que o país precisa crescer e se desenvolver para enfrentar os impactos da crise internacional, não podemos permitir o retrocesso. Ao privatizar os aeroportos, o governo não está sendo leal com o voto das urnas e a CUT não vai admitir esta violência”, ressaltou Vagner.

“Coerente com o que defendemos e pensamos quando enfrentamos a polícia e a repressão nos anos 90, estamos aqui hoje para denunciar o absurdo que é entregar o filé do transporte aéreo brasileiro, os melhores e mais lucrativos aeroportos à iniciativa privada. E pior, com 80% dos investimentos oferecidos pelo BNDES, que é um banco público”, acrescentou Quintino Severo, secretário geral da CUT Nacional.

Representante da CMP, Luiz Gonzaga (Gegê) denunciou a privatização como um retrocesso lamentável e defendeu a mais ampla mobilização da sociedade brasileira para impedir o prosseguimento de tal crime.O presidente da CGTB, Ubiraci Dantas de Oliveira destacou a importância da unidade das centrais e do movimento social para a luta em defesa do Brasil. “Nós precisamos de um Estado cada vez mais forte e atuante em defesa dos interesses do nosso povo, do desenvolvimento nacional. Privatizar é o oposto disso, é abrir mão da soberania”, condenou Bira.

Para o diretor executivo da CUT Nacional, Júlio Turra, o momento exige dos movimentos sindical e social uma ação mais contundente, “para não dar vida fácil aos privatistas e aos que querem continuar perpetrando crimes como este contra o patrimônio público”. “Não vamos permitir que continuem metendo a mão em recursos públicos, em dinheiro do BNDES, para dar lucro garantido a meia dúzia de assaltantes”, acrescentou o secretário de Políticas Sociais da CUT São Paulo, João Batista Gomes (Joãozinho).

Membro da direção nacional do PT, Marcos Sokol lembrou que um serviço público essencial, como e o caso dos aeroportos brasileiros, funciona na base de subsídio cruzado, onde a parte lucrativa garante a deficitária. “Agora querem privatizar o filé, deixando o osso para o Estado. Isso é um crime, uma concessão ao capital internacional, é a volta dos que não foram, na realidade. Se há males que vêm para o bem, posso dizer que esse crime contra a nação brasileira não ficará impune”, acrescentou Sokol.

Em nome da Juventude Pátria Livre (JPL), Antonio Henrique denunciou que a privatização dos aeroportos é “um ato praticado pelas viúvas de FHC, que depois de terem vendido 121 estatais lucrativas querem agora continuar entregando aos estrangeiros a nossa fronteira aérea, dilapidando a nossa empresa de infraestrutura aeroportuária”. “O que precisamos é de mais Estado, de empresas públicas para fazer o Brasil crescer”, concluiu.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

BNDES dá asas à desnacionalização dos aeroportos brasileiros

Banco anuncia que financiará até 90% da privatização com recursos públicos


Matéria publicada nos jornais Hora do Povo e Brasil de Fato

Como se não bastasse a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) exigir a presença de operadores estrangeiros nos consórcios que aspiram participar do leilão de “concessão” dos aeroportos internacionais de Brasília, Campinas e Guarulhos – os maiores e mais lucrativos do país -, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou na última quinta-feira (19) que financiará até 80% do investimento total das empresas contempladas e 90% dos itens financiáveis.

Marcado para o dia 6 de fevereiro, o leilão entregará ao capital privado - nacional e multinacional - o controle de três terminais que, juntos, respondem por 30% do fluxo de passageiros e 57% da carga movimentada no país.

“Esta é uma decisão vergonhosa e inadmissível. Se já não bastasse a privatização de um patrimônio estratégico para o nosso desenvolvimento, agora anunciam o uso de um banco de fomento para estimular o capital estrangeiro”, condenou Celso Klafke, presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores em Aviação Civil (Fentac). Com a experiência de quem congrega aeroviários (trabalhadores das companhias aéreas e de serviços auxiliares que atuam em terra), aeronautas (pilotos, comissários e mecânicos de vôo) e aeroportuários, funcionários da Infraero, que administra os aeroportos, Klafke denuncia a política de “privatizar o filé e estatizar o osso”.

O filé, aliás, é mais do que suculento, pois além do mercado interno vitaminado, temos ainda pela frente a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. De olho nesta maciez, a estadunidense ADC & HAS e a espanhola OHL são algumas das multinacionais que se associaram a empresas brasileiras para candidatar-se ao butim. Vale lembrar que os três terminais em voga realizaram juntos, apenas nos nove primeiros meses do ano passado, cerca de 40 milhões de embarques e desembarques de passageiros.
Conforme projeções da Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária), só o Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, fechou 2011 com movimento de 7,6 milhões de passageiros de voos domésticos e internacionais, 28,5% maior que o do ano anterior, quando 5,43 milhões de pessoas passaram pelos terminais de embarque e desembarque. Em sete anos, o movimento no aeroporto de Campinas cresceu 1.025%.

“Por estas e outras razões somos contra o governo abrir mão do controle dos aeroportos brasileiros e, portanto, da Infraero como empresa pública. Esse modelo de concessão e privatização já demonstrou ao longo da década de 90 que traz imensos prejuízos à população, tanto em termos de tarifa como de qualidade dos serviços prestados”, declarou Artur Henrique, presidente nacional da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Condenando a decisão do BNDES, Artur questionou a irracionalidade do modelo: “Fica a pergunta: se o BNDES pode emprestar 80% para o setor privado, por que não para a Infraero? Eu não sei. Imagino, mas não sei”.

O dirigente da central também alertou que o edital não aponta para a necessidade do controle da torre de pousos e decolagens - do fluxo aéreo - permanecer nas mãos do Estado, o que atenta contra a segurança dos usuários, que ficarão à mercê da lógica e do interesse das empresas. “Mais do que um problema, é o problema abrir mão da Infraero”, sublinhou, já que a empresa é responsável por toda a infraestrutura aeroportuária, desde a terraplanagem para a construção de pistas de pouso até o próprio controle aéreo dos aeroportos.

O presidente do Sindicato Nacional dos Aeroportuários, Francisco Lemos, condenou o estímulo do BNDES à desnacionalização como “uma aberração e uma imoralidade financeira que precisam ser barradas pela Justiça”. Lemos denunciou a “postura facciosa da grande mídia, que partindo do princípio que uma administração privada é mais eficiente do que a pública, manipula as informações”. Mas bem diferente da propaganda privatista, lembrou, a realidade se impõe com “as tampas de bueiros voando nas avenidas do Rio de Janeiro, as panes nos serviços da internet e nos apagões nos serviços de energia elétrica”. Em sua campanha desinformativa, frisou, os conglomerados de comunicação “escondem do grande público que 85% dos aeroportos em todo o mundo são públicos, inclusive nos Estados Unidos".

Lemos destaca que em nenhum momento os trabalhadores - representados pela CUT e pelo SINA - foram contra a parceria com o setor privado. “O que sempre questionamos é o formato da concessão/privatização, ainda mais agora que aponta para uma desnacionalização turbinada com recursos públicos. Entendemos que as atividades fim - operações, segurança aeroportuária, carga aérea, manutenção especializada e navegação aérea - dos três aeroportos em processo de concessão devem permanecer sob a responsabilidade da Infraero”. E sobram argumentos para essa defesa. “Na história da aviação, 98% dos acidentes aéreos ocorreram nos processos de pouso e decolagem e apenas 2% em cruzeiro. Significa dizer que os aeroportos são a parte mais sensível e que a operação dos mesmos não pode ser entregue a quem não tem experiência, através de terceirização e até quarteirização da atividade”, acrescentou.

Além dos seus 38 anos de experiência, a Infraero é reconhecida internacionalmente pela sua competência na operação da infraestrutura aeroportuária. Lemos destaca que “a Infraero é a guardiã da soberania nacional”. Afinal, esclareceu, “pelos aeroportos - além de passageiros - trafegam cargas de alto valor agregado, infecto-contagiosas, vivas, explosivas, radiativas, numerário da Casa da Moeda, além de condenados pela Justiça do Brasil de outros países”.

LEONARDO WEXELL SEVERO


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Privatização dos aeroportos está mais fedida que as de FHC

Pelo edital de privatização da Anac/SAC, quem açambarcar Cumbica vai despender apenas R$ 146 milhões por ano  

 

A minuta de edital, confeccionada pela Anac e Secretaria da Aviação Civil, para a privatização dos aeroportos de Guarulhos, Brasília e Campinas (Viracopos), excede as expectativas – para pior.


Segundo esse edital – ainda não aprovado em sua forma final – uma empresa ou “consórcio” poderiam levar o aeroporto de Brasília (por 25 anos!) pela módica quantia de R$ 75 milhões; o de Campinas, por 30 anos, R$ 521 milhões; e, por 20 anos, o de Guarulhos, aeroporto mais lucrativo do país, por R$ 2,292 bilhões (cf., Anac, “Edital do leilão para concessão, ampliação, manutenção e exploração dos aeroportos internacionais de Brasília-Campinas-Guarulhos”, 4.23, pág. 25).


Porém, essas quantias seriam pagas em suaves prestações, com o lucro que o açambarcador tivesse com o próprio aeroporto, pois “o Valor da Concessão será pago em parcelas anuais, contado da Data de Eficácia do Contrato de Concessão até o advento de seu prazo final” (cf., Anac, Edital cit., 4.24, pág. 25).


Portanto, o açambarcador do aeroporto de Brasília pagaria R$ 3 milhões; o de Guarulhos, R$ 146 milhões; e o de Campinas, R$ 17 milhões anuais para explorar três dos principais aeroportos do país. Isso, sem investir o seu dinheiro – para investir, os açambarcadores teriam o dinheiro do BNDES. Porém, antes de entrar nesse assunto, uma observação.


Algumas pessoas têm repetido que não se trata de uma “privatização”, mas de uma “concessão”. Mudar a palavra não muda a coisa. Para não deixar dúvidas aos açambarcadores, o edital esclarece:
 
“Os Aeroportos Internacionais de Brasília, Campinas e Guarulhos foram incluídos no Programa Nacional de Desestatização - PND, conforme Decreto Federal nº 7.531, de 21 de julho de 2011” (cf., Anac, “Edital”, preâmbulo, pág. 4, grifo nosso).

 
Portanto, não fica bem, por exemplo, um homem de reconhecida inteligência, como o deputado Ricardo Berzoini, declarar que “não é possível comparar privatizações com concessões”. Sem entrar em discussões conceituais sobre o que é uma concessão (isto é, uma concessão do que é público ao que é privado), o que se está discutindo é esta “concessão”, a dos aeroportos de Guarulhos, Brasília e Campinas, e não qualquer outra. Para que incluí-la no programa de privatização de Collor e Fernando Henrique? Exatamente porque se trata de uma privatização.

 
Não falta nem o BNDES – cujo dinheiro, pertencente ao povo brasileiro, foi usado e abusado pelos tucanos para entregar estatais a monopólios privados, sobretudo estrangeiros.
Como naquela época, estaríamos pagando para que nos levem os aeroportos - segundo o ministro da Secretaria de Aviação Civil (SAC), Wagner Bittencourt, o BNDES terá de financiar “entre 50% e 70% do investimento total” nos aeroportos - mas o Estado, através da Infraero, estará proibido de ter mais que 49% do capital das “sociedades de propósito específico” (SPE) que tomariam os nossos aeroportos.


Bittencourt é um sujeito didático: “funciona assim: de cada R$ 100 investidos, R$ 70 virão do BNDES e de outras fontes de financiamento e R$ 30 dos sócios. Dos R$ 30, R$ 14,7 virão da Infraero” (cf. Valor Econômico, 20/10/2011). Logo, a cada R$ 100,00 investidos, os açambarcadores dos aeroportos entrariam com R$ 15,30, apesar de mandarem no aeroporto, administrá-lo de acordo com os seus interesses e lucrarem com ele – e trata-se dos mais lucrativos aeroportos do país.

 Entretanto, “a participação do BNDES, nos empréstimos para projetos de infraestrutura, é limitada a 70%, embora possa aumentar, em casos excepcionais, a 90%” (cf. Valor, ed. Cit.)

 
Diz Bittencourt que “o custo [do empréstimo do BNDES para os açambarcadores] deve ficar em torno de 3% reais. Os valores não são muita coisa para o banco”.

 
Realmente, não são. Então, para que precisamos entregar os aeroportos a consórcios e empresas estrangeiras (pois é disso que se trata: boa parte do edital da Anac trata, precisamente, da participação das empresas estrangeiras na privatização)?

 
Não era para aportar recursos que as empresas estrangeiras viriam tomar os nossos aeroportos?

 
Não, leitor, não era. O objetivo de toda privatização é entregar o bem público, coletivo, a propriedade da população, a alguns assaltantes. Não é resolver problema algum do país, muito menos do povo. Se essa “concessão” significa “conceder” às empresas estrangeiras os nossos recursos (além dos aeroportos mais lucrativos do país, que o Estado já construiu), por que nós mesmos não cuidamos dos aeroportos? Por que falta dinheiro para a Infraero, a mais bem sucedida administradora de aeroportos do mundo, mas não falta para empresas e “consórcios” estrangeiros?

Mas reparem nessa gracinha: “a tendência, por causa da crise financeira internacional, que está aumentando a aversão dos investidores a risco, é que as companhias busquem os recursos do BNDES” - isto é, temos que ajudar, com nosso dinheiro, as empresas e consórcios estrangeiros a se apoderarem dos aeroportos mais lucrativos do país. Senão, elas não terão dinheiro para ganharem mais dinheiro às nossas custas. Como diz Bittencourt, exultante: “é o melhor negócio do mundo” (sic - cf. Valor, ed. cit.).

Realmente, é. Mas não para o Brasil.
O próprio Bittencourt, que agora não tem o menor pejo em falar que os aeroportos precisam de “R$ 21,265 bilhões ao longo de até 30 anos”, declarou em junho que, para a ampliação dos aeroportos até a Copa, bastam R$ 5,6 bilhões (v. HP, 03/06/2011) – isto é, 1/4 do que o BNDES concedeu à Telefónica num único empréstimo.

 Mas quem mandou a Infraero ser nacional e estatal? Diz Bittencourt que “certamente é grande o retorno que temos de empresas estrangeiras interessadas. Antes de ser ministro, fui diretor de infraestrutura do BNDES. Desde essa época a gente via o interesse internacional e nacional em investir nos aeroportos. Não existe restrição para a participação de empresas estrangeiras na concessão de aeroportos”.

 
Como é que um sujeito desses pode ser ministro – e do governo da presidente Dilma?
 
Na campanha eleitoral, a proposta de Dilma - aliás, razoável - foi a abertura do capital da Infraero. Literalmente: “acredito que não haveria dificuldade de abrir o capital da Infraero e manter o controle da empresa nas mãos do Estado, como ocorre com a Petrobrás. Nós tivemos durante muito tempo zero de investimentos nesse País” (entrevista durante caminhada no Rio de Janeiro, 02/08/2010).

 
O que é perfeitamente coerente com o que disse, meses antes, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC: “não permitirei, se tiver forças para isto, que o patrimônio nacional, representado por suas riquezas naturais e suas empresas públicas, seja dilapidado e partido em pedaços. Tenham certeza de que nunca, jamais me verão tomando decisões ou assumindo posições que signifiquem a entrega das riquezas nacionais a quem quer que seja”.

 
Ou, quando, em outubro de 2010, abordou o caráter político-ideológico de seu adversário:

 
“Essa é a principal diferença entre o nosso governo e a turma do contra: eles só pensam em vender o patrimônio público. Eu acredito que as empresas públicas desempenham um papel fundamental no desenvolvimento do país”.

 
A presidente Dilma tinha razão. Por isso, é fácil resolver o problema atual. Quando se cometem erros, não há problema em corrigi-los. Problemas há se eles não forem corrigidos.

Carlos Lopes
www.horadopovo.com.br