Pensatempo: leilões
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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Haroldo Lima exalta leilões do petróleo e enaltece entrega ao cartel transnacional



Traíra virou “consultor” da HRT Oil & Gás, associação de fundos especulativos estadunidenses
 
Carlos Lopes, na Hora do Povo

Haroldo Lima mente contra a Petrobrás e o Brasil
Não é uma novidade que o sr. Haroldo Lima venha exaltar os leilões do petróleo e enaltecer a entrega do petróleo brasileiro às multinacionais (pois é este o conteúdo da Lei 9.478 de 1997, a lei de Fernando Henrique, tão incensada por Lima em seu recente artigo, que permite às petroleiras estrangeiras ficarem com todo o petróleo que extraírem). Nem é uma surpresa que Lima venha acusar o presidente Lula de "atrofiar a atividade petrolífera" por ter suspenso os leilões, exatamente após a descoberta das reservas do pré-sal. Diz Lima que "quando (…) por ausência de licitação, deixa-se de realimentar a exploração, o setor petrolífero, normalmente muito dinâmico, passa a sofrer uma atrofia de sua atividade. (…) É o caso de agora, quando já estamos há quatro anos sem fazer licitação" - e segue-se um comovente pranto sobre a situação das petroleiras que "mourejam em dificuldades" (sic) pela falta de leilões.
Lima apenas omite que, durante o mandato de Lula descobriu-se o pré-sal – e, mesmo sem contar o petróleo do pré-sal, as nossas reservas totais de petróleo passaram de 13 bilhões de barris (2002) para 28,5 bilhões (2010), um aumento de 117% - e a produção passou de 530 milhões de barris para 750 milhões, um aumento de 41,7% - graças a uma única empresa, a Petrobrás.
Mas nessa fraude não há nada de novo. A única novidade, portanto, é a direção do PCdoB endossar e homiziar essa indignidade e indigência – e as que se seguem. O artigo de Lima é uma condensação do seu servilismo, um inventário de renegado, com falsificações flagrantes. Mas não é nada mais que uma antologia do que tem feito nos últimos anos. A novidade, realmente, é que a direção do PCdoB dê guarida a essa mísera profissão de fé: a de um elemento que renega o seu passado - ou seja, a si próprio -, e, portanto, à sua identidade como brasileiro e tudo o que de melhor disse, fez ou escreveu, ao passar para o lado dos inimigos do país (ou será que alguém tem dúvida de que o imperialismo continua a existir, não fosse o Iraque, a Líbia, a Síria, o Afeganistão e a mais recente invasão do Brasil por multinacionais e dólares vagabundos?) - e que, de combatente, passou a "consultor" de uma biboca norte-americana.
Lenin escreveu que não há uma grande luta sem heróis e sem traidores. Realmente, só as lutas medíocres dispensam os heróis – e não amedrontam, por sua falta grandeza, os covardes que se tornam traidores quando a luta é verdadeiramente grande. Da mesma forma, disse o revolucionário russo, cada crise na vida dos indivíduos, ou na história das nações, esmaga e quebra a uns, ao mesmo tempo que fortalece e ilumina a outros.
Lima é hoje "consultor" da HRT Oil & Gas – uma associação entre o funddo especulativo do magnata norte-americano Mason Hawkins (o Southeastern Asset Management, Inc.) e o Discovery Capital Management, fundo especulativo de outro magnata, também norte-americano, Robert K. Citrone.
A principal façanha de Lima como "consultor" foi fazer a ANP reclassificar a HRT para "operadora A" - ou seja, operadora em águas profundas – com o sensacional currículo de ter furado "meio poço na Namíbia", segundo disse a própria Magda, sua amiga e ex-colega na agência.
Pois, antes, Lima foi diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), onde se notabilizou por tentar impedir a Petrobrás, na 8ª Rodada de leilões do petróleo, de ficar com mais de 11% dos blocos leiloados – até a 7ª Rodada, a Petrobrás ficara com 70% deles. A 8ª Rodada foi suspensa pela Justiça (v. HP, 01/12/2006) e depois cancelada pela presidente Dilma.
Por tudo isso, também não é surpreendente que ele não tenha lido ou que falsifique dados publicados pela própria agência da qual era diretor-gerente: não é verdade que a suspensão dos leilões, a partir de 2006, tenha diminuído a "exploração" (ou seja, "a aquisição de dados", como define o anuário da ANP) em relação ao período anterior. Pelo contrário, a atividade exploratória aumentou no período. Lima está, intencionalmente, confundindo o fato de que a atividade exploratória diminuiu em 2011 em relação a 2010 – e atribuindo essa redução a todo o período que vai de 2006 até agora. Mas isso é mentira: veja o leitor a página 70, tabela 2.1, e a página 71, tabela 2.2, do "Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis – 2012", publicado pela ANP.
Também não é uma novidade (nem uma surpresa) que em sua corrida para Antenora (o recinto do nono círculo do Inferno, que, segundo Dante, destina-se aos traidores da pátria e/ou do seu partido), Lima tenha o descaramento de dizer que a famigerada lei 9.478 não foi confeccionada pelos tucanos, mas pelos progressistas da Câmara, inclusive ele próprio. Essa outra opção – a de enlamear o próprio passado – não tem muito futuro. Todo mundo sabe que o Haroldo, na época, não era o Haroldo de hoje.
Mas era esperável que ele tentasse falsificar o passado para justificar seu deprimente presente. Ou, mais esperável ainda, que tentasse falsificar o próprio presente, dizendo que o cartel petrolífero internacional não existe mais, substituído que foi pelas estatais... Será que o Lima estatizou a Exxon-Mobil? Ou a Shell? Ou a Chevron? Ou a BP? Ou a BG? Ou a ConocoPhilips?
Apesar de ainda mais cínica, também não existe novidade na declaração do Lima de que sua opção pelo entreguismo é para defender a Petrobrás (não brinca...). Ora, o que poderia ele dizer? Que sua opção pelo entreguismo é porque gosta de entregar? Ou, como um anti-São Francisco, que é dando que se dá?
Lima é muito ignorante em tudo que diz respeito ao petróleo – já vimos a sua teoria das "áreas explora-tórias" que só conseguem aparecer se houver algum leilão e minguam quando não há leilão. Literalmente: "acrescentar áreas em exploração significa, no Brasil, fazer licitação". Por quê? Já mostramos que a atividade exploratória aumentou entre 2006 e 2012, quando não houve leilão. Porém, há mais um gato na tuba: ao que parece ele quer revogar a nova lei do petróleo, pois, por ela, que regula a exploração do pré-sal, a Petrobrás não precisa de leilão algum para estabelecer suas "áreas exploratórias", pois o Estado tem o dever de alocar as áreas estratégicas para a companhia brasileira. Com essa teoria de meia-tigela para enrolar incautos, Lima acusa Lula de ter prejudicado o país com a suspensão dos leilões – mas não tem o destemor de citar pelo nome o acusado.
Portanto, nenhuma novidade, nem mesmo na forma de Lima se oferecer mais uma vez ao cartel petrolífero (esse que não existe mais...): comemorando uma suposta vitória no leilão de terça-feira, apesar da HRT não ter conseguido levar nem um tasco do nosso petróleo. Portanto, a vitória que Lima comemorava não era a da companhia que lhe paga os proventos, mas a do cartel, pois sem dúvida que a Petrobrás não entusiasma o Haroldo. Quem, além da Petrobrás, conseguiu algo mais ou menos significativo no leilão? A multinacional inglesa BG (10 blocos, sendo 9 em águas profundas); a francesa Total (6 blocos em águas profundas); a norueguesa Statoil (4 blocos em águas profundas); a norte-americana Exxon-Mobil, as inglesas British Petroleum e Premier Oil e a canadense Niko Resources (cada uma, 2 blocos em águas profundas); e a norte-americana Chevron, a australiana BHO Billiton e a colombiana Ecopetrol (1 bloco em águas profundas, cada uma).
Nem mesmo é algo surpreendente que Lima diga que ser entreguista é a posição verdadeiramente "de esquerda". Deve ter sido essa, ou seu equivalente na época, a justificativa de Calabar para colaborar com o colonialismo holandês – aquele que transformou toda a Indonésia numa senzala.
Assim, diz Lima que sua atitude é própria "da esquerda histórica à qual pertenço". Não é, não, exceto se Lima considerar que Carlos Lacerda foi um membro da "esquerda histórica" apenas porque um dia entrou na Juventude Comunista. Lima, pelo jeito, só registra a entrada, jamais a saída.
Naturalmente, Lima nada tem de "histórico", porque nada há de histórico em colaborar com a entrega do petróleo nacional, em chamar de posição "de esquerda" as caducas idiotices de Gudin, Bob Fields e Fernando Henrique - que, pelo menos, tiveram o senso de ridículo de não se pretender corifeus "de esquerda" dos cartéis norte-americanos.

O título original do artigo publicado no WWW.horadopovo.com.br é Haroldo Lima reserva quarto em Antenora

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Moraes: “Com leilões do petróleo, governo retoma a agenda neoliberal”




Coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP) sublinha importância estratégica do controle das nossas riquezas para o desenvolvimento e para a soberania nacional

Leonardo Wexell Severo


João Antonio Moraes, líder da Federação Única dos Petroleiros
Nesta entrevista, o coordenador geral da Federação Única dos Petroleiros, João Antonio Moraes, fala da luta da categoria pela soberania, PLR e melhores condições de trabalho, denuncia a ação da mídia em prol dos interesses neoliberais e privatistas, e alerta para o risco dos leilões e para a irracionalidade da lógica da direção da empresa e do governo de exportar o óleo cru, que não agrega valor, em detrimento da indústria nacional. Ecoando as palavras do presidente Lula de que “o pré-sal é um bilhete premiado”, Moraes sublinha a importância estratégica do controle destas imensas riquezas para o nosso desenvolvimento e para a própria soberania nacional. “Enquanto a cada quatro poços perfurados no mundo, três são secos, no pré-sal a cada dez poços perfurados, oito tem petróleo. Hoje já estamos produzindo 200 mil barris diários da Petrobrás na área do pré-sal, o que já equivale a 10% da produção total. Isso comprova que é mesmo um bilhete premiado. Colocar uma riqueza destas, numa área sem risco, à disposição de empresas estrangeiras privadas, não tem nenhum sentido”.


Qual a sua avaliação do movimento de greve nacional dos petroleiros realizado na última segunda-feira (28)?
O movimento foi bastante expressivo, com a categoria respondendo de maneira contundente ao chamado da Federação Única dos Petroleiros (FUP). Até mesmo as direções divisionistas, aquelas que costumeiramente nos atacam, reconheceram a liderança nacional da Federação. A mobilização deixou um saldo muito positivo e deu ainda mais energia ao Conselho Deliberativo da FUP, que se reuniu na última quarta e quinta-feira (30 e 31), para intensificar a mobilização rumo à greve nacional por tempo determinado de 20 a 24 de fevereiro. É profundamente lamentável o fato da direção da Petrobrás não se dignar a receber os petroleiros para debater o montante da Participação nos Lucros e Resultados (PLR). Não aceitamos que a empresa mantenha os dividendos dos acionistas no mesmo patamar e, ao mesmo tempo, proponha reduzir em mais de 50% a PLR da categoria.

A direção da Petrobrás colheu um resultado negativo e decidiu manter intocada a fatia dos acionistas arrochando a PLR dos trabalhadores?
É isso ocorreu, o que nos causa espanto. Afinal, a redução dos lucros é um fator causado pelos acionistas ou pelos gestores indicados por eles. Não há razão para culpar o mundo do trabalho por decisões equivocadas pelas quais os trabalhadores não foram sequer consultados. Aliás, nós vínhamos alertando para os problemas e apontando soluções. Não fomos ouvidos.

Que tipo de problemas?
Um dos fatores que contribuíram para o resultado negativo obtido pela Petrobrás foi o fato das plataformas terem sido interditadas pelas condições precárias de trabalho existentes, algo que já havia sido alertado pelo Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense e pela própria FUP. Portanto, a categoria foi vítima dos acionistas responsáveis pelos problemas, mas que tiveram seus interesses preservados. Os trabalhadores foram prejudicados e estão sendo penalizados para beneficiar quem errou e isso é completamente inaceitável.

Com o eufemismo “concessão”, o governo está preparando uma enxurrada de privatizações. O próprio ministro Mantega declarou que fará um “road show” mundo afora para ofertar o patrimônio público com financiamento do BNDES. Como a FUP vê isso?
Considero que todo esse processo iniciado com a privatização dos aeroportos no ano passado é uma grave concessão do atual governo aos conservadores, que aplaudem obviamente a retomada da agenda neoliberal. Para nós, este retrocesso é um profundo equívoco, sobre vários aspectos. O primeiro deles é a agenda neoliberal, que é um completo fiasco, mesmo sob a ótica do capitalismo, haja visto o que está ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos. Consideramos os aeroportos, assim como o setor energético, uma questão de soberania nacional, estratégica para o nosso desenvolvimento. Colocar à disposição das empresas transnacionais recursos naturais escassos não tem justificativa. Se a intenção é o diálogo com as forças conservadores, é mais do que um engano, pois quanto mais tiverem, mais concessões obtiverem, mais vão querer. O fato é que eles não arredam pé do seu projeto e querem acumular forças para derrotar o projeto popular e democrático em curso. Para isso mobilizam todos os seus instrumentos, utilizando a mídia para pautar o debate em função dos interesses da reação conservadora.

E o que dizer do pré-sal?
Como disse o presidente Lula, sempre tão criticado por essa mesma imprensa, o pré-sal é um bilhete premiado. Enquanto a cada quatro poços perfurados no mundo, três são secos, no pré-sal a cada dez poços perfurados, oito tem petróleo. Hoje já estamos produzindo 200 mil barris diários da Petrobrás na área do pré-sal, o que já equivale a 10% da produção total. Isso comprova que é mesmo um bilhete premiado. Colocar uma riqueza destas, numa área sem risco, à disposição de empresas estrangeiras privadas, não tem nenhum sentido. É importante ressaltar que as guerras contra o Iraque e a Líbia foram feitas pelo petróleo, que é um patrimônio estratégico que precisa estar sob controle do nosso povo e não de empresas estrangeiras. Vale lembrar que a Lei da Partilha permite ao Estado convocar diretamente a Petrobrás, sem fazer nenhum leilão. Para a FUP, este é o caminho. Defendemos o interesse nacional, público, que é o oposto da lógica de produzir a qualquer custo, como está propondo a direção da empresa e o governo. Acreditamos que é preciso calibrar a extração com a capacidade da nossa indústria processar o petróleo, em vez de exportar o óleo cru, que não agrega valor. Além do mais, a atual redução do consumo de energia nos Estados Unidos e a descoberta do gás de xisto naquele país poderão fazer a arrecadação ser pífia, o que é um novo argumento para que o governo reflita, pois aponta que não é o momento para leilões.

A FUP crê que o protagonismo dos movimentos sociais possa jogar papel decisivo para pressionar o governo a não adotar a pauta do retrocesso?.
Acho que, independentemente de sensibilizar ou não o governo, o papel do movimento social é apresentar propostas e fazer críticas. Vejamos o caso da desoneração, onde muitos dos empresários beneficiados continuaram demitindo trabalhadores e arrochando salários para aumentar a sua taxa de lucro, e que acabou também prejudicando enormemente a Previdência. Diferente disso, estudos mostram que cada real investido no Bolsa Família retorna diretamente para a economia, beneficiando o conjunto da população. Já o dinheiro da desoneração corre o risco de virar iate ou mansão em Miami. Outro exemplo: se em vez de capitalizar empresas estrangeiras, o BNDES tivesse colocado o dinheiro na mão da Infraero, o resultado seria mais rápido, melhor e ainda teríamos um patrimônio sob o controle do povo. Com a nova administração, estrangeira, o aeroporto de Brasília deixou de ser da Infraero e passa a ser da InfroAmérica. Para o bem do país e do povo brasileiro, é preciso que o governo retome o protagonismo do Estado em função do interesse público. Esta é a luta dos petroleiros do Brasil que estarão se somando à CUT e às demais centrais na Marcha da Classe Trabalhadora no dia 6 de março em Brasília.