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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

“Povo hondurenho defenderá nas ruas a sua vitória nas urnas”, afirma Zelaya

“Exigimos que se respeite a decisão do povo de que Xiomara seja sua presidenta”, ressalta o coordenador do Partido Livre, repudiando a fraude

Leonardo Severo - Direto de Honduras

Soldados cercam protesto pacífico contra o golpe eleitoral
“Exigimos que se respeite a decisão do povo de que Xiomara Castro seja a sua presidenta. Não importa o que façam, porque esse processo se iniciou e ninguém vai pará-lo”, afirmou o coordenador do Partido Livre (Liberdade e Refundação), Manuel Zelaya. Junto a centenas de militantes, o ex-presidente destacou durante coletiva de imprensa nesta segunda-feira (25) em Tegucigalpa que, “se necessário, o povo defenderá nas ruas a sua vitória nas urnas”.
Deposto por um golpe militar patrocinado pelos EUA em 2009, Zelaya enfatizou que “as urnas falaram em defesa de uma mudança profunda” e denunciou que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) age em função dos interesses da oligarquia vende-pátria, representada pelo candidato Juan Orlando Hernández, do Partido (Anti) Nacional.
 “O Tribunal não está contabilizando 1.900 atas, cerca de 400 mil votos, de zonas em que na sua grande maioria o Partido Livre ganhou amplamente. Estamos prontos para comparar as atas que temos com as que chegaram do TSE. Que eles demonstrem o contrário, que perdemos. Nunca poderiam fazê-lo”, acrescentou Zelaya, aplaudido de pé.
Segundo Zelaya, a disposição do Partido Livre não é a de “conclamar a sublevação, mas de garantir direitos, que não se negociam”. “Por que o Tribunal aparta 20% das urnas em seu resultado? Basta ter um mínimo de inteligência para explicar”, condenou o ex-presidente, com a militância respondendo em coro: “vamos às ruas!”.
A presidenta eleita, Xiomara Castro, dedicou a vitória aos “homens e mulheres que entregaram sua vida por esta causa, aos jovens que doaram seu sangue pela liberdade da Pátria e de todo o povo hondurenho”. “Os dados que recebemos de todo o país com a contagem das atas eleitorais confirmam que sou a presidenta da Honduras. Não vou decepcionar, cumpriremos da primeira a última palavra empenhada”, agradeceu.

RECHAÇO À FRAUDE
Comitê de Familiares de Detidos e Desaparecidos denuncia
O candidato do Partido Anti-Corrupção (PAC), Salvador Nasralla, também rechaçou a fraude: “Os resultados estão dramaticamente violentados e não correspondem à realidade”. Nasralla, um apresentador de televisão, asseverou que o partido governista utilizou dois call centers para produzir e escanear atas falsas. Elas seriam enviadas ao centro de apuração, adulterando os resultados. “Tenho todas as provas e já apresentei uma denúncia à fiscalização. Além disso, o partido do governo comprou muitos dos representantes de mesa do meu partido, para que se retirassem do centro de votação e não defendessem nossos votos”, disse.
Reforçando esta denúncia, a TV Globo de Honduras divulgou entrevistas com inúmeros fiscais que comercializaram suas credenciais partidárias para o Partido Nacional. A reflexão é elementar: pela legislação eleitoral as mais de 16 mil urnas necessitariam de, pelo menos 32 mil pessoas de cada partido, entre fiscais e suplentes. Tais agremiações deveriam ter, portanto, pelo menos esses dois votos. Abertas as urnas, os partidos que atuaram como legenda de aluguel, todos juntos, não somaram sequer 1% dos votos. Formados para isolar o Partido Livre, seus “representantes” atuaram para controlar as mesas eleitorais e armar a fraude.
“GRAVES EVIDÊNCIAS DE FRAUDE”
 Foi o que viu a delegação de observadores da Confederação Sindical Internacional (CSI), que apontou a existência de “graves evidências de uma fraude eleitoral”. “Durante todo o dia recebemos denúncias de diversas formas de manipulação e compra de votos, ameaças e outros atos de violência contra os fiscais e os eleitores do Livre”, informou a CSI, ressaltando que “alguns deles foram testemunhados pelos representantes da missão, assim como pelas várias organizações internacionais aqui vindas para observar as eleições”.
Denis Roberto foi brutalmente agredido pelos fascistas
Também nesta segunda-feira à tarde, no Comitê de Familiares de Detidos e Desaparecidos de Honduras (Cofadeh), a canadense Laura Carter, dirigente do Industrial Global Union, apontou a existência de “uma série de irregularidades, que podem ter impacto determinante nos números divulgados pelo TSE". Laura informou que na zona de São Miguel, na região metropolitana de Tegucigalpa, que conta com 50 mil votantes, força expressiva de Xiomara, nada menos do que 400 eleitores apareceram como "mortos" - sendo retirados da lista, sem poder votar - e outros mil simplesmente "desapareceram do registro".

Marcelina Samaniego, representante da Internacional dos Trabalhadores da Construção e da Madeira (ICM), denunciou “a sonegação de informações e o não envio das planilhas de votação”. Como na região de San Pedro Sula, Xiomara liderava, esclareceu Marcelina, o jovem que manejava o computador e centralizava o processo lhe disse ter "orientações claras" para atrasar o envio de urnas desfavoráveis. "Nós não podíamos ter acesso e a Força Pública e a Militar estavam ali para respaldar o que eles dissessem", acrescentou. 

Denis Roberto Aguilar Gomez, fiscal do Partido Livre na Escola Tomas Alvarez na mesa 9357, no bairro Nova Esperança, na região metropolitana de Tegucigalpa, foi agredido por 20 fascistas do Partido Nacional. Quando foi denunciar aos policiais militares acabou sendo detido ilegalmente e agredido, por ser de oposição. "Me torturaram dentro da escola", relatou, mostrando as marcas da agressão.

PERSEGUIÇÃO E INTIMIDAÇÃO

Às vésperas das eleições de domingo (24), o governo hondurenho utilizou policiais militares e da migração para perseguir e intimidar observadores internacionais, identificados como simpatizantes de Xiomara. Personalidades como Rigoberta Menchú, prêmio Nobel da Paz, foram impedidas até de entrar no país. Ao mesmo tempo, os golpistas convidaram 23 organizações de extrema direita para acompanhar o pleito.

Na cidade de El Progreso, próxima a San Pedro Sula, um dos principais polos da resistência ao golpe contra Zelaya, cinco soldados da Migração, fortemente armados, entraram no centro de capacitação da Igreja em busca de “salvadorenhos”. Terceira principal cidade do país, El Progreso é o berço de Roberto Micheletti, ditador alçado ao poder em 2009.

Na capital, Tegucigalpa, prefeitos e parlamentares da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), que governa El Salvador, também foram abordados e constrangidos por policiais a poucos metros do Honduras Maya, hotel em que estamos hospedados.

Nesta segunda, soldados fortemente armados voltaram a cercar o hotel, tentando impedir um protesto pacífico contra a fraude eleitoral, condenada em coro como um novo golpe. “Mídia vendida, conta-nos bem, não somos um, não somos cem”, alertaram os manifestantes, repudiando a manipulação dos grandes conglomerados de comunicação em favor dos golpistas.




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Foster Dulles, a mídia e a invasão da Guatemala para a United Fruit



Uma reflexão sobre a guerra de extermínio movida pelos EUA, sua mídia e demais eunucos contra o governo anti-imperialista de Jacobo Arbenz

Leonardo Wexell Severo


“A experiência da Guatemala constitui um verdadeiro arsenal de exemplos de luta anti-imperialista para os nacionalistas de todo o mundo”
Osny Duarte Pereira

Um dos principais acionistas da United Fruit, John Foster Dulles era também – ou por isso mesmo - o secretário de Estado do governo norte-americano no início dos anos 50 quando o presidente da Guatemala, Jacobo Árbenz, decidiu via reforma agrária levar a justiça ao campo e à cidade.

O pequeno país centro-americano foi atacado para defender o interesse do secretário de Estado, que acusava o berço da civilização maia de ser uma “ameaça à paz e à segurança do Hemisfério. Da mesma forma que na guerra do Iraque foram injetados montanhas de bilhões de dólares na empresa do então vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, o principal beneficiado pela invasão. Nas duas sangrentas agressões à soberania nacional e aos direitos de todo um povo, os meios de comunicação atuaram como correia de transmissão política e ideológica do imperialismo. O livro de Plínio de Abreu Ramos, “Foster Dulles e a invasão da Guatemala” (Editora Fulgor, 1958) fala sobre a primeira intervenção ianque no continente após a guerra fria.

No prefácio, o professor e jurista Osny Duarte Pereira dá o seu testemunho sobre o que moveu a ira da United Fruit e sua “guerra de extermínio contra um governo”. “Lembro-me nitidamente e jamais me sairá da memória a comoção que me causou, uma fila de lavradores nos guichês da Repartição da Reforma Agrária, recebendo as escrituras de seus terrenos. Homens do campo, condenados perpetuamente à condição de peões, subitamente levados à condição de proprietários das terras, nas quais eram trabalhadores assalariados. Era necessário assistir à cena das fisionomias daquela gente humilde, segurando os documentos com as duas mãos, olhos arregalados, um sorriso largo e, em seguida, abraçaram-se efusivos, despedindo-se da odiosa situação de antigos servos da gleba que eram antes. Parecia uma cena de distribuição de diplomas em festa de formatura, embora se realizasse, como um ato de rotina da repartição governamental, em hora normal de expediente normal, sem discursos, nem aglomerações”. 

Como também recorda o chefe da Casa Civil do presidente Getúlio Vargas, Lourival Fontes, logo na abertura do mesmo livro, “A história da América a partir dos tempos coloniais até os dias mais recentes da sua vida independente não se dissocia em nenhum momento do sistema econômico-internacional e das suas práticas de exploração. A transição do período colonial para o autonomismo marcou a passagem das maldições do monopólio para as penalidades das concessões, dos privilégios e do penhor estrangeiros”. Quando pensamos nas concessões de portos, aeroportos e rodovias, e muito mais grave, no leilão do campo de Libra, no pré-sal, temos a exata dimensão do alerta.

NACIONALIZAÇÃO DE TERRAS

O decreto de 7 de junho de 1953, que marcou o começo da reforma agrária na Guatemala, interrompida um ano depois pela invasão do país, previa a expropriação de menos de 10% das áreas - entre cultivadas e incultas - de propriedade da United Fruit. Poucas semanas depois, em 26 de junho, a República da Guatemala, por intermédio de seu embaixador em Washington, Guilhermo Garrido Torrielo, comunicou ao Departamento de Estado a nacionalização de 233.973 acres de terra de propriedade da Frutera.

O momento era de extrema tensão, lembra o então diretor do Diário de Notícias do Rio de Janeiro, João Portela Ribeiro Dantas, “com a América Central totalmente abalada pelos interesses da companhia norte-americana United Fruit, empresa a que pertencem suas rodovias, suas ferrovias, seus portos e seus navios”. Na verdade, o reinado estabelecido pelo cartel nos países do Caribe “antecede à investida dos trustes petrolíferos ingleses e americanos nas regiões produtoras da Venezuela e do México”.

Dando continuidade às transformações iniciadas pelo presidente Juan José Arévalo (1945-1950), Árbenz vê a necessidade da ruptura com a lógica semicolonial. “Três companhias estrangeiras – United Fruit Company, International Railway of Central America e a Companhia Agrícola de Guatemala – dominavam 75% da superfície agrícola do país e o total de suas linhas de comunicação terrestre e navegação marítima. 80% de sua população camponesa era empregada nas plantações de bananas exploradas pela Frutera. A Guatemala exportava para os Estados Unidos 76% de sua produção e importava, daquele país, 64% dos produtos consumidos no seu mercado interno”. O mesmo torniquete que o Tratado de Livre Comércio (TLC) EUA-Guatemala, assinado em anos recentes, visa perpetuar.
Baseado na Lei de Reforma Agrária e “de acordo com a resolução da ONU que reconhece a todas as nações o direito de nacionalizar seus recursos naturais”, o presidente guatemalteco anunciou a indenização da Frutera sob forma de pagamento em títulos, num prazo de 25 anos a partir da data da expropriação, “ao valor que a companhia havia declarado para fins de tributação”. 

SONEGAÇÃO MONUMENTAL

“A United Fruit pagava ao governo da Guatemala 0,15 cêntimos de dólar por cacho de banana exportado, sem possibilidade de fiscalização aduaneira dessa operação, uma vez que o transporte para a zona de embarque e o carregamento do produto eram efetuados em ferrovias da companhia, embarcados em instalações portuárias controladas pela companhia e transportados para o exterior em navios da própria companhia. Dentro desse privilégio invulnerável de açambarcamento, a adulteração dos dados anuais da colheita da banana, fornecidos ao governo para efeito do imposto taxado por unidade-cacho, subia a mais de 120% sobre o total da produção anual. O Fundo Monetário Internacional documentou em seu relatório correspondente ao ano de 1946 que a declaração do montante da exportação da Frutera comunicada ao governo da Guatemala, naquele período, fora de oito milhões de dólares, quando a exportação avançava à cifra dos dezenove milhões”, apontou Plínio de Abreu Ramos. No ano seguinte, ainda de conformidade com estudos do FMI, “a empresa confessou uma exportação de onze milhões e meio, havendo exportado, de fato, trinta milhões oitocentos mil dólares”. Para ter uma ideia da sonegação, vale lembrar que naquele tempo uma residência na capital guatemalteca custava três mil dólares.

“As primeiras aquisições de propriedades agrárias alcançadas pela United Fruit na Guatemala remontam os tempos da ditadura de Cabrera, no período de 1901 a 1904, ampliadas mais tarde através de contratos assinados durante o efêmero governo de Orellana nos anos de 1923 e 1924. Em 1930, dominado o país pelo caudilho Lázaro Chacón, a companhia estende suas concessões sobre o litoral atlântico, criando em suas ferrovias uma tabela de frete sobre os transportes de produtos nacionais, cuja exportação se processava através desses portos localizados na orla do Pacífico. O resultado dessa ofensiva em direção à costa oriental do país foi, não só a expulsão de proprietários e camponeses das terras que cultivavam na região, mas de um modo especial veio onerar a produção nacional reduzida em face do monopólio, pela Frutera, da rede rodoviária do país. Alguns municípios da zona atlântica para resguardar os interesses dos proprietários nacionais lesados pela companhia, tentaram recurso à justiça, mas o ditador Ubico, apoiado no Exército subornado pelo truste, confirmou a posse da Frutera sobre as terras contestadas”.

“VENCER O VERMELHISMO”

Para garantir o êxito da ação, era necessário invisibilizar os inúmeros avanços obtidos pelos governos nacionalistas de Arévalo e Arbenz, que herdaram o caos do ditador Jorge Ubico (1931-1944), vassalo dos EUA. “As novas rodovias e ferrovias, as centrais elétricas, a reforma agrária, as escolas abertas por toda a parte, ofereciam um espetáculo naquela América Central que dera a sensação, confrontando com os países vizinhos, de estar fora do continente”, relata Osny Duarte Pereira.

Neste momento é que entraram em cena para “vencer as forças do vermelhismo” as agências internacionais de notícias, particularmente a United Press. A empreitada desinformativa visava também cimentar o envolvimento dos “três reis caribenhos contra a Guatemala infiel, altiva e soberana”: “Don Tacho Somoza, da Nicarágua; Don Rafael Trujilo, de São Domingos e Don Perez Jimenez, da Venezuela, cumprindo o pregão da guerra santa exarado”.

Em comunicado oficial à imprensa mundial, o presidente Jacobo Árbenz exibiu mais de duzentas cópias de documentos apreendidos pelas autoridades guatemaltecas implicando Somoza, Trujillo e Jimenez na ação golpista comandada pelo coronel Castillo Armas, mercenário a serviço da CIA, exilado em Honduras. Segundo o comunicado, os conspiradores “estavam adquirindo aviões e bombas Napalm através da firma nicaraguense A.Somoza & CIA, em que Don Tacho e seu filho Somoza Debayle, atual ditador, eram sócios no comércio do contrabando de armas de guerra desembarcados clandestinamente nas costas do Atlântico para municiar as hordas mercenárias”. O governo alertou que numerosos bandos de ‘sabotadores, assassinos e soldados’ estavam sendo adestrados na ilha nicaraguense de Momotombito e na província de Tamarindo, esta última “feudo rural” da família Somoza.

A denúncia do presidente Árbenz ainda descrevia como foi planejado o desembarque nas costas do Pacífico “com tropas trazidas de portos nicaraguenses em barcaças acondicionadas”, o “apoio aéreo mediante bombardeio das povoações e aterragem em aeroportos particulares do Pacífico”, os “ataques simultâneos pela fronteira de Honduras”, e toda a sequência de ações dos mercenários

“Os despachos telegráficos da United Press e dos porta-vozes do Departamento de Estado, publicados nos jornais de 19 de junho anunciando a invasão da Guatemala, mostram que os chefes militares invasores não tiveram o cuidado de retificar o plano de ataque denunciado pelo governo de Jacobo Árbenz. O governo revidou esse agravo, providenciando a expulsão do país dos jornalistas americanos Sidney Gruson e Marshall Bannel, correspondentes respectivamente do ‘New York Times’ e da ‘National Broadcasting Company’, como sendo agentes mais ativos na campanha de desprestígio que, em forma maliciosa e crescente, desenvolvem certos órgãos de informação contra a Guatemala”, relata o livro.

“Irritada” com a expulsão dos dois espiões, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes “sugeriu” ao Departamento de Estado sanções econômicas à nação maia, suspendendo as compras do café daquele país. Na imprensa brasileira, o “entusiasmo” previsto pela United Press foi recebido com indescritível euforia nas manchetes do “O Globo” e dos “Diários Associados”. A “Tribuna da Imprensa” do Rio de Janeiro foi além na submissão: “Agora, sirvam-se chamar-nos de vendido ao estrangeiro. Isso não nos assusta nem nos desvia do caminho que temos a percorrer”.

NOTÍCIA DEFORMADA E CALUNIOSA

 “O maior perigo” – advertiu o embaixador da Guatemala em Washington, Guilhermo Garrido Toriello – “é que estão procurando apoio coletivo da América para violar impunemente o princípio de não intervenção, porém nos recusamos a crer que estão querendo voltar às velhas práticas de antanho, em que os velhos monopólios influíam predominantemente na política de alguns países, por meio do temor ao grande porrete e da vergonhosa diplomacia do dólar, em que era coisa natural que a infantaria da Marinha dos Estados Unidos desembarcava em portos latino-americanos para dominar as alfândegas, a fim de ‘proteger interesses’ ou para ‘corrigir atividades políticas’ que não agradavam àqueles interesses”.  “Tudo isso se está fazendo na Guatemala, porém não o sabem os povos da América. A notícia que lhes chega pelas agências noticiosas, que servem à causa dos monopólios, é uma notícia deformada e sempre caluniosa”, advertiu o chanceler, frisando que tal ação midiática se prestava à “subserviência mental”.

Para justificar a remessa de armamento norte-americano para Honduras, onde seriam entregues aos mercenários de Castillo Armas, os “eunucos de maior pedigree” passaram a propagar a versão de que o governo da Guatemala vinha adquirindo armas de guerra na União Soviética e na Polônia. Dando continuidade ao script, já na semana seguinte, a United Press divulgava um despacho, segundo o qual “as autoridades de Honduras descobriram vestígios de participação de elementos do governo guatemalteco na greve que estourara na véspera nos plantios de bananas da Frutera ao norte daquele país”. E na mesma toada utilizada hoje contra o presidente Assad e o povo da Síria, provocavam uma verdadeira avalanche desinformativa, buscando criar o caldo de cultura necessário à intervenção, com aviões norte-americanos lançando “armamento cunhado com a foice e o martelo” sobre a zona rural confiscada. O governo guatemalteco denunciou a armação. Mas ninguém repercutiu. 

“ESPADAS DE MADEIRA” 

Esclarecendo o caso da compra das “armas pesadas de guerra” – que infelizmente para a manutenção da soberania e da democracia também não era verdade - o governo suíço informou que “a carga enviada à Guatemala, orçada em 40 mil dólares, equivalentes a 134 mil francos suíços, constava apenas de 16 caixas de cartuchos para treinamento de defesa anti-aérea”. E assinalava a “impropriedade” de qualificar como “arma”, a “cartuchos que não podem ser mais úteis em guerra do que espadas de madeira”. Apesar deste esclarecimento oficial da própria fonte fornecedora, “a mentira nutrida pela corrupção do truste insistia, resoluta e audaciosa, em atribuir a origem da compra dos cartuchos à Polônia e à União Soviética”. Jogando verde, a mídia venal prospectava para os invasores as vulnerabilidades da resistência guatemalteca.

No Brasil, se prestando à genuflexão ianque, a Tribuna da Imprensa publicou em 24 de junho de 1954: “O navio sueco ‘Alfhelm’, depois de viagem misteriosa cheia de vaivens, desembarcou clandestinamente, mas sob as vistas diretas do governo, duas mil toneladas, em 25 mil caixas de armamento tcheco controlado pela Rússia, vindas do porto polonês do Sttettin, no Báltico. Interpelado, o governo guatemalteco declarou que desde 1949 os Estados Unidos, sob alegação de que não tinham confiança no destino que ia ser dado ao armamento, deixaram de vender ou ceder armas à Guatemala. Por isto, disse, recorreu a fontes russas, mas era um único e pequeno carregamento, garantiu Toriello, em nome do governo”.

Intencionalmente, inventaram dados, deturparam a fonte e a quantidade das armas encomendadas, “além de responsabilizarem Toriello por explicações que ele não deu, não podia dar nem tinha que dar”. As equipes sabotadoras, que agiam com impressionante e inexplicável desembaraço, “eram chefiadas dentro da própria Guatemala por um sacerdote francês expulso do país e acolhido no Rio de Janeiro pelas autoridades brasileiras, onde passou a conceder entrevistas difamatórias contra aquela República nas colunas do O Globo e da Tribuna da Imprensa”. “No terreno da espionagem, o governo não ignorava que nesse ofício criminoso exercitavam-se, abertamente, a imprensa colaboracionista da Frutera, ‘El Imparcial’, ‘El Espectador’, ‘El Mundo Libre’, certas facções do clero filiadas à Acción Social Cristiana”.

Antes de ordenar que suas tropas contra-atacassem o inimigo, que já ocupara uma faixa territorial de 15 quilômetros além da fronteira nicaraguense, o governo Árbenz recorreu ao Conselho de Segurança da ONU, com Toriello informando a presença de forças militares estrangeiras no Departamento de Chiquimula e o bombardeio de suas cidades por “aviões de construção norte-americana P-47”, oriundos de bases instaladas em Nicarágua e Honduras, “uma vez que os mercenários não possuíam nenhum aeródromo ou base militar no país”. O chanceler guatemalteco esclareceu ainda que na noite do dia 20 o navio hondurenho “Siesta de Trujillo” foi apreendido em Puerto Barrios quando descarregava metralhadoras, fuzis e granadas para abastecer os mercenários, “enquanto novos aviões bombardeavam Zacapa, York e Cristina e pontes ferroviárias que ligavam à fronteira de Honduras à capital da Guatemala”.

“PROPAGANDA POLÍTICA”

A United Press ainda aproveitou o fato de ter sido o soviético Viatcheslav Molotov o primeiro chanceler a responder à exortação de Toriello. No dia 27, em artigo publicado no Diário de Notícias do Rio de Janeiro, Rafael Correa de Oliveira denuncia os propósitos da desinformação veiculada pelas agências de notícias, restabelecendo a versão exata das notas diplomáticas trocadas entre chancheleres da Guatemala e da União Soviética. Com esse espírito, esclarece o articulista, “tenha o leitor muito cuidado com o noticiário das agências telegráficas”. “Anteontem, por exemplo, tentaram impingir aos jornais um comunicado sobre as viagens de cruzadores russos que viriam trazer uma especializada missão militar para defender a Guatemala. Era mentira. Ontem publicaram um apelo da Guatemala a Molotov. Também mentiram. Trata-se do telegrama-circular enviado a todos os membros do Conselho de Segurança – o Brasil e a Rússia incluídos. O noticiário tendencioso individualizou o apelo para assim melhor cumprir as instruções da propaganda política da guerra da banana”.

No setor de Zacapa, denunciava o governo guatemalteco, “era considerável o número de civis mortos em consequência do metralhamento da população por aviões P-47, marca Thunderbolt, de fabricação norte-americana, que só poderiam proceder de Manágua ou de Tegucigalpa, cujos aeroportos, de Las Mercedes e Toncintis, respectivamente, eram os únicos na América Central que possuíam pistas de pouso para aparelhos daquele tipo”. 

No dia 28 de junho, “com a Guatemala sangrando nos campos de batalha e traída pela covardia remunerada da diplomacia norte-americana”, Arbenz renuncia. As ações da Frutera sobem dois pontos na Bolsa de Valores de Nova York.

“A corrupção imperialista na Guatemala, como não podia deixar de acontecer, causou efeitos imediatos de fome, terrorismo e ditadura logo nos primeiros meses da subida de Castillo Armas ao poder”. Apenas nos campos de concentração de Poptum, no Departamento de Peten, havia cerca de 6.500 prisioneiros. Os assassinatos políticos respondiam à “orientação” por uma “justiça severa, rápida e eficaz”. “Uma das primeiras vítimas dos assassinatos judiciários ordenados pela ditadura, depois dos massacres de Vila Nueva, Amatitlan e Antigua, em que foram metralhados quase todos os líderes sindicais dos trabalhadores da Frutera, foi o deputado Alarico Bennet, executado a mando de Rozendo Perez, facínora e bandoleiro fugitivo da justiça guatemalteca, que alugara seus serviços às quadrilhas mercenárias de Castillo Armas”.

CORRUPÇÃO NORTE-AMERICANA

O “nível de decomposição generalizada que a corrupção norte-americana provocou na atmosfera de venalidade que rodeia o país” logo ficou evidenciado. Tamanhas foram a “indecência e a infâmia” das “cláusulas” enviadas pelo ditador à Assembleia Constituinte, “eleita” depois da invasão sem a participação dos partidos aliados de Árbenz, postos na ilegalidade, que o deputado Clemente Rojas - diretor do jornal bananeiro “La Hora”, que participou de toda a violenta campanha movida contra o governo nacionalista - chegou a declarar que se retirava “enojado desta assembleia” e “deste Congresso corrompido”. “Igual desprezo pela ditadura mercenária manifestou outro antigo prócer bananeiro, senhor Alfonso Carrillo, quando expressou em seu discurso: “Sinto-me como se formássemos parte dos Estados Unidos. A tradução macarrônica desses contratos é, obviamente, o resultado da tradução do inglês para o castelhano”.

“Como nos tempos antigos aparecem, de novo, na Guatemala, os descalços e andrajosos que enchem especialmente as ruas da capital”, descreve Carleton Beals, no “The Progressive”. E prossegue: “grande percentagem de desempregados são trabalhadores despedidos das obras e dos projetos de casa popular, assim como também camponeses despojados de suas terras. Cerca de um milhão de acres lhes haviam sido entregues pelo governo de Arbenz, parcelas de terras devolutas que os camponeses com seus próprios recursos haviam preparado para a semeadura. O desemprego geral e a destruição dos Sindicatos acarretou uma baixa de salários de aproximadamente um dólar - que ganhavam na época democrática - até o salário de quinze centavos, que era o nível corrente sob a ditadura de Ubico. Em alguns lugares os salários do campo foram rebaixados em 50% ou mais. Ao mesmo tempo, a inflação e a escassez de alimentos elevou até o céu o custo de vida”.

Em meio a este cenário de devastação e degeneração, Ramon Blanco, sócio do jornal golpista “El Imparcial”, colunista da “Tribuna da Imprensa”, escreve em 24 de setembro de 1954 que “há muita gente que tem estranhado muitíssimo que não se organizasse, até agora, uma homenagem pública ao embaixador dos Estados Unidos da América, senhor John Peurifoy, como demonstração de agradecimento e carinho por sua magnífica atuação e colaboração para vencer a administração que acaba de ser derrotada”.

A “deificação lisonjeira” expressa pelo escriba pró-imperialista, conclui Plínio de Abreu Ramos, “vai ao cúmulo de louvor ao espião alegre e libertino com a mesma solicitude do serviçal Lebel que, ao beijar os calções rendados de Luiz XV, exclamava enternecido: “Senhor, podeis contar com a minha canalhice!”

sábado, 5 de novembro de 2011

Pepe Escobar: “Golpe na Líbia foi sustentado pela cobertura da Al Jazeera”



“Estratégia de militarização planetária inclui a OTAN como braço armado da ONU dentro desse conceito espúrio e ridículo de responsabilidade de proteção de civis, onde eles são mortos – de verdade - pela intervenção do neo-imperialismo”
 
Entre as muitas contribuições trazidas pelos mais de 600 participantes de 23 países ao 1º Encontro Mundial de Blogueiros, realizado entre os dias 24 e 27 de outubro em Foz do Iguaçu-PR, cabe destaque a do veterano jornalista Pepe Escobar. Debatedor do painel “Experiências na Ásia e África”, o colunista do Ásia Times (Japão) e articulista da rede Al Jazeera (Qatar) demonstrou a “relação direta” entre “o golpe militar ocorrido na Líbia” – com envolvimento de tropas da Inglaterra, França e Catar, que sustentaram em terra a agressão promovida pelo Pentágono - e a abjeta propaganda pró-invasão pelas agências internacionais de “notícias”.

A OTAN sempre quis uma base na Líbia, lembrou Escobar, “mas isso só seria possível com um novo governo”. Na sua avaliação, além das imensas riquezas energéticas do país – petróleo e gás -, os Estados Unidos tinham interesse na invasão por uma razão muito mais séria: sua perspectiva de “guerra infinita”, bem ao gosto do complexo militar-industrial e dos grandes bancos, que veem na China um objetivo estratégico a longo prazo. Com este objetivo, explicou, foi conformado “o Comando da África, o Africom, fundado em 2008, durante a administração Bush, que é basicamente a ideia do Pentágono de ir contra os contratos comerciais que o país asiático faz com o continente inteiro. Pelo menos 25 países africanos têm contratos muito próximos”. “Assim, se para comprar óleo, gás e minerais, os chineses pagam um bom preço e se comprometem a fazer o que for solicitado, desde a construção de mini Itaipus e escolas a redes de fibra ótica, distribuindo celular para todo mundo e chegando com sua tecnologia, etc., os EUA precisavam agir. E o que fizeram diante da tomada dos mercados, o que tinham a oferecer? Militarização, esta é a estratégia do Pentágono”.

Recapitulando, observou, o Africom queria a sua primeira guerra na África dentro de uma ação geopolítica mais ofensiva, tanto em relação ao continente, como para acumular forças em direção à Ásia. “O Africom teve de ser estabelecido em Stuttgart, na Alemanha, porque nenhum país africano queria que se instalasse no continente, a começar pela Líbia. O próprio Kadafi fez campanha: ‘não podemos aceitar os imperialistas dentro da nossa casa’. E aí eles entraram pela porta de trás”.

CÚPULA DA OTAN

O jornalista lembra que “houve uma cúpula da OTAN em Lisboa em dezembro do ano passado onde foi traçado um mapa sobre o que iriam fazer até 2020”.  Ali, explicou, “está mais ou menos delineado, se lê nas entrelinhas, bem claro: transformar o Mediterrâneo inteiro num lago da OTAN, controlado pela OTAN. No passado, na Roma antiga, se chamava mare nostrum, ‘nosso mar’ em latim. No século 21 é uma nova versão, só que agora militarizada. E havia três países que não são membros da OTAN ou que não têm acesso aos milhões de dólares dos seus programas: Líbano, Síria e Líbia. A Líbia era o alvo imediato e já tinha o pretexto criado ali no teatro de operações. A Síria é o próximo”.

Desta forma, “o golpe militar foi equacionado na França e começou no ano passado, em outubro, quando o chefe do protocolo de Kadafi defectou e foi parar em Paris. Então a inteligência francesa chegou perto dele e organizaram a ação com a OTAN", explicou Escobar. Ele relata que chegou a estar em contato com jovens da chamada “google generation” do leste – “região mais conservadora da Líbia”, que inicialmente haviam realizado mobilizações “pró-democracia”, que acabaram “fornecendo o estopim”, “logo usado por oportunistas aliados em Cirenaica, no leste, e por infiltrados em Trípoli, que na última hora iam cair fora”.
Perguntei a Pepe sobre como via a denúncia do WiliLeaks de que o diretor geral da rede de televisão Al Jazeera, Wadah Khanfar, atuou em consonância com os interesses do Departamento de Estado dos EUA após a invasão do Iraque, o que o obrigou a se demitir. Lembrei as conversas que vieram à tona, onde ficou comprovado que Khanfar concordou em retirar, a pedido do governo estadunidense, "duas imagens que mostravam crianças feridas num hospital e uma mulher com um rosto gravemente ferido”, entre outras ações em prol duma cobertura mais branda sobre os abusos cometidos pelas tropas de ocupação. Pepe disse que a partir da saída de Khanfar, “houve a mudança na direção e a substituição por um tecnocrata próximo ao emir”. Ou seja, uma ação ainda mais escancarada em prol dos EUA.

De acordo com o jornalista, o “Catar é um tema tabu no Oriente Médio”, um ponto “fundamental que ficou oculto até o final por causa da Al Jazeera, que fez uma cobertura totalmente parcial”. “Eu posso falar isso porque escrevo para a Al Jazeera, conheço de dentro. Cobriram a guerra como se fosse um filme de Hollywood, de forma maniqueísta. Todo o rebelde da OTAN era mocinho e a família Kadafi e o resto do sistema inteiro era pior do que o Darth Vader. Isso causou um imenso desconforto dentro da rede, de jornalistas que conheciam a Líbia. Kadafi era muito popular, principalmente no Oeste”.

E o que moveu a rede de televisão do Catar, que cumpriu um papel chave anteriormente na denúncia da Guerra do Iraque, a abdicar do jornalismo? “Foi a conquista de contratos comerciais”, respondeu, o motivo principal que levou o emir do Catar – proprietário da rede - a transformar a Al Jazeera em sucursal dos interesses imperiais.  “Queriam solidificar a aliança deles com a OTAN. Tanto assim que eles forneceram seis Mirages que participaram dos seletivos bombardeios contra o oeste da Líbia, a parte mais desenvolvida. Foram mais de 40 mil bombas durante quase sete meses”.

Diante da situação de guerra civil em que o país se viu mergulhado, acrescentou Pepe, se aponta que há “pelo menos” 50 mil mortos. “Pelo menos 48 mil pelos bombardeios da OTAN e por seus aliados armados, oficiais ingleses, franceses e do Catar”. Soma-se a isso, “o pessoal da Al-Qaeda, que também foi treinado por forças especiais do Catar disfarçadas de rebeldes da OTAN, pois eles falam árabe sem sotaque”.

PREPARAÇÃO DO TERRENO

Conforme esclareceu o jornalista, os protestos iniciais na conservadora – e base fundamentalista - Bengazi, foram dirigidos por um “bando de oportunistas que incluía agentes da CIA, que viveram 20 anos na Virgínia [estado dos EUA] - e que voltaram dizendo que agora eram comandantes militares -, tropas especiais britânicas em solo líbio e a inteligência francesa em solo líbio”. Os invasores, explicou, tinham “ligação direta com o Libyan Islamic Fighting Group (Grupo de Luta Islâmica na Líbia) - que era filiado à Al-Qaeda”. “Vários deles haviam treinado no Afeganistão, num campo ao norte de Kabul em que estive antes de 2001. E já me falavam de líbios naquela época”.

Os “rebeldes da OTAN”, enfatiza, se concentraram desde o início nas cidades mais reacionárias, ao leste. A contestação principal partia de “líbios islâmicos radicais filiados à Al-Qaeda, alguns deles que viraram até comandantes desta organização”. “Inclusive um personagem muito importante, Abdul Akim Belhaj, (hoje chefe militar do Conselho Nacional de Transição - CNT) era o emir deste grupo. Ele foi capturado em Bangcoc, por incrível que pareça, numa das operações clandestinas da CIA. Foi torturado em Bangcoc, enviado para Guantánamo, e os americanos resolveram devolvê-lo para a Líbia, onde ficou preso até o ano passado. E foi libertado por quem? Por Saif, o filho de Kadafi, que tinha um plano de reconciliação nacional que passava pela libertação de presos políticos importantes. Assim, mais de 200 radicais do leste foram soltos em 2010. Esse pessoal também se agregou ao golpe militar, que depois virou algo muito mais complexo”.

Para justificar a necessidade de mobilização de tropas em socorro de seus “rebeldes”, a “mídia corporativa” começou a brandir a necessidade de “ajuda humanitária”, frisou Pepe. Então, começaram a divulgar que “o regime de Kadafi iria assassinar 700 mil pessoas à beira do Mediterrâneo, o que é completamente absurdo”. Assim, quando os “rebeldes da OTAN viram que não iam conseguir, vieram com a famosa: Vamos chamar a ONU para nos defender ou fazer a ONU instalar uma zona de exclusão aérea. Tudo sob a justificativa de impedir que os jatos de Kadafi metralhassem civis, o que nunca ficou provado por ninguém, nem pela Anistia Internacional nem pela Human Rights, que passaram mais de três meses lá”. De um modo ou de outro, a repetição sistemática pelas agências internacionais de tais mentiras, “criou a abertura perfeita para a aliança atlanticista franco-inglesa-americana”.

De acordo com Pepe Escobar, os franceses também tinham motivos para “declarar sua inimizade eterna por Kadafi”, que afrontava os interesses de expansão neocolonial no continente. O líder líbio também “havia prometido comprar seus jatos Rafales, mas quando viu os Sukhoi russos disse: prefiro estes, são melhores. Os franceses ficaram desesperados. Kadafi tinha dito que deixaria eles montarem uma central nuclear na Líbia e também voltou atrás. Ele tinha um plano de transformar a economia africana unificando os países, através do dinar de ouro, uma moeda africana baseada nas reservas de ouro da Líbia que chegam a US$ 150 bilhões. Com isso ele poderia financiar um programa de investimentos não só no país, como na África subsaariana negra. Esses mesmos, 1,5 milhão de subsaarianos negros que vivem na Líbia, muitos dos quais agora estão sendo torturados, massacrados, eliminados”. “Já está provado que houve uma série de massacres promovidos por estes famosos rebeldes da OTAN, conhecidos hoje como o ‘novo poder’, contra negros africanos, sob a ridícula alegação de que todos eram mercenários de Kadafi”. Tudo porque este enorme contingente de negros, explicou o jornalista, tinha o reconhecimento legal pelo governo líbio: “carta de residência, direito aos programas sociais, acesso às melhores escolas líbias, etc.”. Em poucas palavras, um péssimo exemplo de integração e solidariedade a partir do fortalecimento da auto-estima, da educação.

Infelizmente, destacou Pepe Escobar, “o que está em curso é uma estratégia de militarização planetária, que inclui a OTAN como braço armado da ONU dentro deste conceito espúrio e ridículo de responsabilidade de proteção de civis, onde eles são mortos – de verdade - pela intervenção do neo-imperialismo”.