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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Foster Dulles, a mídia e a invasão da Guatemala para a United Fruit



Uma reflexão sobre a guerra de extermínio movida pelos EUA, sua mídia e demais eunucos contra o governo anti-imperialista de Jacobo Arbenz

Leonardo Wexell Severo


“A experiência da Guatemala constitui um verdadeiro arsenal de exemplos de luta anti-imperialista para os nacionalistas de todo o mundo”
Osny Duarte Pereira

Um dos principais acionistas da United Fruit, John Foster Dulles era também – ou por isso mesmo - o secretário de Estado do governo norte-americano no início dos anos 50 quando o presidente da Guatemala, Jacobo Árbenz, decidiu via reforma agrária levar a justiça ao campo e à cidade.

O pequeno país centro-americano foi atacado para defender o interesse do secretário de Estado, que acusava o berço da civilização maia de ser uma “ameaça à paz e à segurança do Hemisfério. Da mesma forma que na guerra do Iraque foram injetados montanhas de bilhões de dólares na empresa do então vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, o principal beneficiado pela invasão. Nas duas sangrentas agressões à soberania nacional e aos direitos de todo um povo, os meios de comunicação atuaram como correia de transmissão política e ideológica do imperialismo. O livro de Plínio de Abreu Ramos, “Foster Dulles e a invasão da Guatemala” (Editora Fulgor, 1958) fala sobre a primeira intervenção ianque no continente após a guerra fria.

No prefácio, o professor e jurista Osny Duarte Pereira dá o seu testemunho sobre o que moveu a ira da United Fruit e sua “guerra de extermínio contra um governo”. “Lembro-me nitidamente e jamais me sairá da memória a comoção que me causou, uma fila de lavradores nos guichês da Repartição da Reforma Agrária, recebendo as escrituras de seus terrenos. Homens do campo, condenados perpetuamente à condição de peões, subitamente levados à condição de proprietários das terras, nas quais eram trabalhadores assalariados. Era necessário assistir à cena das fisionomias daquela gente humilde, segurando os documentos com as duas mãos, olhos arregalados, um sorriso largo e, em seguida, abraçaram-se efusivos, despedindo-se da odiosa situação de antigos servos da gleba que eram antes. Parecia uma cena de distribuição de diplomas em festa de formatura, embora se realizasse, como um ato de rotina da repartição governamental, em hora normal de expediente normal, sem discursos, nem aglomerações”. 

Como também recorda o chefe da Casa Civil do presidente Getúlio Vargas, Lourival Fontes, logo na abertura do mesmo livro, “A história da América a partir dos tempos coloniais até os dias mais recentes da sua vida independente não se dissocia em nenhum momento do sistema econômico-internacional e das suas práticas de exploração. A transição do período colonial para o autonomismo marcou a passagem das maldições do monopólio para as penalidades das concessões, dos privilégios e do penhor estrangeiros”. Quando pensamos nas concessões de portos, aeroportos e rodovias, e muito mais grave, no leilão do campo de Libra, no pré-sal, temos a exata dimensão do alerta.

NACIONALIZAÇÃO DE TERRAS

O decreto de 7 de junho de 1953, que marcou o começo da reforma agrária na Guatemala, interrompida um ano depois pela invasão do país, previa a expropriação de menos de 10% das áreas - entre cultivadas e incultas - de propriedade da United Fruit. Poucas semanas depois, em 26 de junho, a República da Guatemala, por intermédio de seu embaixador em Washington, Guilhermo Garrido Torrielo, comunicou ao Departamento de Estado a nacionalização de 233.973 acres de terra de propriedade da Frutera.

O momento era de extrema tensão, lembra o então diretor do Diário de Notícias do Rio de Janeiro, João Portela Ribeiro Dantas, “com a América Central totalmente abalada pelos interesses da companhia norte-americana United Fruit, empresa a que pertencem suas rodovias, suas ferrovias, seus portos e seus navios”. Na verdade, o reinado estabelecido pelo cartel nos países do Caribe “antecede à investida dos trustes petrolíferos ingleses e americanos nas regiões produtoras da Venezuela e do México”.

Dando continuidade às transformações iniciadas pelo presidente Juan José Arévalo (1945-1950), Árbenz vê a necessidade da ruptura com a lógica semicolonial. “Três companhias estrangeiras – United Fruit Company, International Railway of Central America e a Companhia Agrícola de Guatemala – dominavam 75% da superfície agrícola do país e o total de suas linhas de comunicação terrestre e navegação marítima. 80% de sua população camponesa era empregada nas plantações de bananas exploradas pela Frutera. A Guatemala exportava para os Estados Unidos 76% de sua produção e importava, daquele país, 64% dos produtos consumidos no seu mercado interno”. O mesmo torniquete que o Tratado de Livre Comércio (TLC) EUA-Guatemala, assinado em anos recentes, visa perpetuar.
Baseado na Lei de Reforma Agrária e “de acordo com a resolução da ONU que reconhece a todas as nações o direito de nacionalizar seus recursos naturais”, o presidente guatemalteco anunciou a indenização da Frutera sob forma de pagamento em títulos, num prazo de 25 anos a partir da data da expropriação, “ao valor que a companhia havia declarado para fins de tributação”. 

SONEGAÇÃO MONUMENTAL

“A United Fruit pagava ao governo da Guatemala 0,15 cêntimos de dólar por cacho de banana exportado, sem possibilidade de fiscalização aduaneira dessa operação, uma vez que o transporte para a zona de embarque e o carregamento do produto eram efetuados em ferrovias da companhia, embarcados em instalações portuárias controladas pela companhia e transportados para o exterior em navios da própria companhia. Dentro desse privilégio invulnerável de açambarcamento, a adulteração dos dados anuais da colheita da banana, fornecidos ao governo para efeito do imposto taxado por unidade-cacho, subia a mais de 120% sobre o total da produção anual. O Fundo Monetário Internacional documentou em seu relatório correspondente ao ano de 1946 que a declaração do montante da exportação da Frutera comunicada ao governo da Guatemala, naquele período, fora de oito milhões de dólares, quando a exportação avançava à cifra dos dezenove milhões”, apontou Plínio de Abreu Ramos. No ano seguinte, ainda de conformidade com estudos do FMI, “a empresa confessou uma exportação de onze milhões e meio, havendo exportado, de fato, trinta milhões oitocentos mil dólares”. Para ter uma ideia da sonegação, vale lembrar que naquele tempo uma residência na capital guatemalteca custava três mil dólares.

“As primeiras aquisições de propriedades agrárias alcançadas pela United Fruit na Guatemala remontam os tempos da ditadura de Cabrera, no período de 1901 a 1904, ampliadas mais tarde através de contratos assinados durante o efêmero governo de Orellana nos anos de 1923 e 1924. Em 1930, dominado o país pelo caudilho Lázaro Chacón, a companhia estende suas concessões sobre o litoral atlântico, criando em suas ferrovias uma tabela de frete sobre os transportes de produtos nacionais, cuja exportação se processava através desses portos localizados na orla do Pacífico. O resultado dessa ofensiva em direção à costa oriental do país foi, não só a expulsão de proprietários e camponeses das terras que cultivavam na região, mas de um modo especial veio onerar a produção nacional reduzida em face do monopólio, pela Frutera, da rede rodoviária do país. Alguns municípios da zona atlântica para resguardar os interesses dos proprietários nacionais lesados pela companhia, tentaram recurso à justiça, mas o ditador Ubico, apoiado no Exército subornado pelo truste, confirmou a posse da Frutera sobre as terras contestadas”.

“VENCER O VERMELHISMO”

Para garantir o êxito da ação, era necessário invisibilizar os inúmeros avanços obtidos pelos governos nacionalistas de Arévalo e Arbenz, que herdaram o caos do ditador Jorge Ubico (1931-1944), vassalo dos EUA. “As novas rodovias e ferrovias, as centrais elétricas, a reforma agrária, as escolas abertas por toda a parte, ofereciam um espetáculo naquela América Central que dera a sensação, confrontando com os países vizinhos, de estar fora do continente”, relata Osny Duarte Pereira.

Neste momento é que entraram em cena para “vencer as forças do vermelhismo” as agências internacionais de notícias, particularmente a United Press. A empreitada desinformativa visava também cimentar o envolvimento dos “três reis caribenhos contra a Guatemala infiel, altiva e soberana”: “Don Tacho Somoza, da Nicarágua; Don Rafael Trujilo, de São Domingos e Don Perez Jimenez, da Venezuela, cumprindo o pregão da guerra santa exarado”.

Em comunicado oficial à imprensa mundial, o presidente Jacobo Árbenz exibiu mais de duzentas cópias de documentos apreendidos pelas autoridades guatemaltecas implicando Somoza, Trujillo e Jimenez na ação golpista comandada pelo coronel Castillo Armas, mercenário a serviço da CIA, exilado em Honduras. Segundo o comunicado, os conspiradores “estavam adquirindo aviões e bombas Napalm através da firma nicaraguense A.Somoza & CIA, em que Don Tacho e seu filho Somoza Debayle, atual ditador, eram sócios no comércio do contrabando de armas de guerra desembarcados clandestinamente nas costas do Atlântico para municiar as hordas mercenárias”. O governo alertou que numerosos bandos de ‘sabotadores, assassinos e soldados’ estavam sendo adestrados na ilha nicaraguense de Momotombito e na província de Tamarindo, esta última “feudo rural” da família Somoza.

A denúncia do presidente Árbenz ainda descrevia como foi planejado o desembarque nas costas do Pacífico “com tropas trazidas de portos nicaraguenses em barcaças acondicionadas”, o “apoio aéreo mediante bombardeio das povoações e aterragem em aeroportos particulares do Pacífico”, os “ataques simultâneos pela fronteira de Honduras”, e toda a sequência de ações dos mercenários

“Os despachos telegráficos da United Press e dos porta-vozes do Departamento de Estado, publicados nos jornais de 19 de junho anunciando a invasão da Guatemala, mostram que os chefes militares invasores não tiveram o cuidado de retificar o plano de ataque denunciado pelo governo de Jacobo Árbenz. O governo revidou esse agravo, providenciando a expulsão do país dos jornalistas americanos Sidney Gruson e Marshall Bannel, correspondentes respectivamente do ‘New York Times’ e da ‘National Broadcasting Company’, como sendo agentes mais ativos na campanha de desprestígio que, em forma maliciosa e crescente, desenvolvem certos órgãos de informação contra a Guatemala”, relata o livro.

“Irritada” com a expulsão dos dois espiões, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes “sugeriu” ao Departamento de Estado sanções econômicas à nação maia, suspendendo as compras do café daquele país. Na imprensa brasileira, o “entusiasmo” previsto pela United Press foi recebido com indescritível euforia nas manchetes do “O Globo” e dos “Diários Associados”. A “Tribuna da Imprensa” do Rio de Janeiro foi além na submissão: “Agora, sirvam-se chamar-nos de vendido ao estrangeiro. Isso não nos assusta nem nos desvia do caminho que temos a percorrer”.

NOTÍCIA DEFORMADA E CALUNIOSA

 “O maior perigo” – advertiu o embaixador da Guatemala em Washington, Guilhermo Garrido Toriello – “é que estão procurando apoio coletivo da América para violar impunemente o princípio de não intervenção, porém nos recusamos a crer que estão querendo voltar às velhas práticas de antanho, em que os velhos monopólios influíam predominantemente na política de alguns países, por meio do temor ao grande porrete e da vergonhosa diplomacia do dólar, em que era coisa natural que a infantaria da Marinha dos Estados Unidos desembarcava em portos latino-americanos para dominar as alfândegas, a fim de ‘proteger interesses’ ou para ‘corrigir atividades políticas’ que não agradavam àqueles interesses”.  “Tudo isso se está fazendo na Guatemala, porém não o sabem os povos da América. A notícia que lhes chega pelas agências noticiosas, que servem à causa dos monopólios, é uma notícia deformada e sempre caluniosa”, advertiu o chanceler, frisando que tal ação midiática se prestava à “subserviência mental”.

Para justificar a remessa de armamento norte-americano para Honduras, onde seriam entregues aos mercenários de Castillo Armas, os “eunucos de maior pedigree” passaram a propagar a versão de que o governo da Guatemala vinha adquirindo armas de guerra na União Soviética e na Polônia. Dando continuidade ao script, já na semana seguinte, a United Press divulgava um despacho, segundo o qual “as autoridades de Honduras descobriram vestígios de participação de elementos do governo guatemalteco na greve que estourara na véspera nos plantios de bananas da Frutera ao norte daquele país”. E na mesma toada utilizada hoje contra o presidente Assad e o povo da Síria, provocavam uma verdadeira avalanche desinformativa, buscando criar o caldo de cultura necessário à intervenção, com aviões norte-americanos lançando “armamento cunhado com a foice e o martelo” sobre a zona rural confiscada. O governo guatemalteco denunciou a armação. Mas ninguém repercutiu. 

“ESPADAS DE MADEIRA” 

Esclarecendo o caso da compra das “armas pesadas de guerra” – que infelizmente para a manutenção da soberania e da democracia também não era verdade - o governo suíço informou que “a carga enviada à Guatemala, orçada em 40 mil dólares, equivalentes a 134 mil francos suíços, constava apenas de 16 caixas de cartuchos para treinamento de defesa anti-aérea”. E assinalava a “impropriedade” de qualificar como “arma”, a “cartuchos que não podem ser mais úteis em guerra do que espadas de madeira”. Apesar deste esclarecimento oficial da própria fonte fornecedora, “a mentira nutrida pela corrupção do truste insistia, resoluta e audaciosa, em atribuir a origem da compra dos cartuchos à Polônia e à União Soviética”. Jogando verde, a mídia venal prospectava para os invasores as vulnerabilidades da resistência guatemalteca.

No Brasil, se prestando à genuflexão ianque, a Tribuna da Imprensa publicou em 24 de junho de 1954: “O navio sueco ‘Alfhelm’, depois de viagem misteriosa cheia de vaivens, desembarcou clandestinamente, mas sob as vistas diretas do governo, duas mil toneladas, em 25 mil caixas de armamento tcheco controlado pela Rússia, vindas do porto polonês do Sttettin, no Báltico. Interpelado, o governo guatemalteco declarou que desde 1949 os Estados Unidos, sob alegação de que não tinham confiança no destino que ia ser dado ao armamento, deixaram de vender ou ceder armas à Guatemala. Por isto, disse, recorreu a fontes russas, mas era um único e pequeno carregamento, garantiu Toriello, em nome do governo”.

Intencionalmente, inventaram dados, deturparam a fonte e a quantidade das armas encomendadas, “além de responsabilizarem Toriello por explicações que ele não deu, não podia dar nem tinha que dar”. As equipes sabotadoras, que agiam com impressionante e inexplicável desembaraço, “eram chefiadas dentro da própria Guatemala por um sacerdote francês expulso do país e acolhido no Rio de Janeiro pelas autoridades brasileiras, onde passou a conceder entrevistas difamatórias contra aquela República nas colunas do O Globo e da Tribuna da Imprensa”. “No terreno da espionagem, o governo não ignorava que nesse ofício criminoso exercitavam-se, abertamente, a imprensa colaboracionista da Frutera, ‘El Imparcial’, ‘El Espectador’, ‘El Mundo Libre’, certas facções do clero filiadas à Acción Social Cristiana”.

Antes de ordenar que suas tropas contra-atacassem o inimigo, que já ocupara uma faixa territorial de 15 quilômetros além da fronteira nicaraguense, o governo Árbenz recorreu ao Conselho de Segurança da ONU, com Toriello informando a presença de forças militares estrangeiras no Departamento de Chiquimula e o bombardeio de suas cidades por “aviões de construção norte-americana P-47”, oriundos de bases instaladas em Nicarágua e Honduras, “uma vez que os mercenários não possuíam nenhum aeródromo ou base militar no país”. O chanceler guatemalteco esclareceu ainda que na noite do dia 20 o navio hondurenho “Siesta de Trujillo” foi apreendido em Puerto Barrios quando descarregava metralhadoras, fuzis e granadas para abastecer os mercenários, “enquanto novos aviões bombardeavam Zacapa, York e Cristina e pontes ferroviárias que ligavam à fronteira de Honduras à capital da Guatemala”.

“PROPAGANDA POLÍTICA”

A United Press ainda aproveitou o fato de ter sido o soviético Viatcheslav Molotov o primeiro chanceler a responder à exortação de Toriello. No dia 27, em artigo publicado no Diário de Notícias do Rio de Janeiro, Rafael Correa de Oliveira denuncia os propósitos da desinformação veiculada pelas agências de notícias, restabelecendo a versão exata das notas diplomáticas trocadas entre chancheleres da Guatemala e da União Soviética. Com esse espírito, esclarece o articulista, “tenha o leitor muito cuidado com o noticiário das agências telegráficas”. “Anteontem, por exemplo, tentaram impingir aos jornais um comunicado sobre as viagens de cruzadores russos que viriam trazer uma especializada missão militar para defender a Guatemala. Era mentira. Ontem publicaram um apelo da Guatemala a Molotov. Também mentiram. Trata-se do telegrama-circular enviado a todos os membros do Conselho de Segurança – o Brasil e a Rússia incluídos. O noticiário tendencioso individualizou o apelo para assim melhor cumprir as instruções da propaganda política da guerra da banana”.

No setor de Zacapa, denunciava o governo guatemalteco, “era considerável o número de civis mortos em consequência do metralhamento da população por aviões P-47, marca Thunderbolt, de fabricação norte-americana, que só poderiam proceder de Manágua ou de Tegucigalpa, cujos aeroportos, de Las Mercedes e Toncintis, respectivamente, eram os únicos na América Central que possuíam pistas de pouso para aparelhos daquele tipo”. 

No dia 28 de junho, “com a Guatemala sangrando nos campos de batalha e traída pela covardia remunerada da diplomacia norte-americana”, Arbenz renuncia. As ações da Frutera sobem dois pontos na Bolsa de Valores de Nova York.

“A corrupção imperialista na Guatemala, como não podia deixar de acontecer, causou efeitos imediatos de fome, terrorismo e ditadura logo nos primeiros meses da subida de Castillo Armas ao poder”. Apenas nos campos de concentração de Poptum, no Departamento de Peten, havia cerca de 6.500 prisioneiros. Os assassinatos políticos respondiam à “orientação” por uma “justiça severa, rápida e eficaz”. “Uma das primeiras vítimas dos assassinatos judiciários ordenados pela ditadura, depois dos massacres de Vila Nueva, Amatitlan e Antigua, em que foram metralhados quase todos os líderes sindicais dos trabalhadores da Frutera, foi o deputado Alarico Bennet, executado a mando de Rozendo Perez, facínora e bandoleiro fugitivo da justiça guatemalteca, que alugara seus serviços às quadrilhas mercenárias de Castillo Armas”.

CORRUPÇÃO NORTE-AMERICANA

O “nível de decomposição generalizada que a corrupção norte-americana provocou na atmosfera de venalidade que rodeia o país” logo ficou evidenciado. Tamanhas foram a “indecência e a infâmia” das “cláusulas” enviadas pelo ditador à Assembleia Constituinte, “eleita” depois da invasão sem a participação dos partidos aliados de Árbenz, postos na ilegalidade, que o deputado Clemente Rojas - diretor do jornal bananeiro “La Hora”, que participou de toda a violenta campanha movida contra o governo nacionalista - chegou a declarar que se retirava “enojado desta assembleia” e “deste Congresso corrompido”. “Igual desprezo pela ditadura mercenária manifestou outro antigo prócer bananeiro, senhor Alfonso Carrillo, quando expressou em seu discurso: “Sinto-me como se formássemos parte dos Estados Unidos. A tradução macarrônica desses contratos é, obviamente, o resultado da tradução do inglês para o castelhano”.

“Como nos tempos antigos aparecem, de novo, na Guatemala, os descalços e andrajosos que enchem especialmente as ruas da capital”, descreve Carleton Beals, no “The Progressive”. E prossegue: “grande percentagem de desempregados são trabalhadores despedidos das obras e dos projetos de casa popular, assim como também camponeses despojados de suas terras. Cerca de um milhão de acres lhes haviam sido entregues pelo governo de Arbenz, parcelas de terras devolutas que os camponeses com seus próprios recursos haviam preparado para a semeadura. O desemprego geral e a destruição dos Sindicatos acarretou uma baixa de salários de aproximadamente um dólar - que ganhavam na época democrática - até o salário de quinze centavos, que era o nível corrente sob a ditadura de Ubico. Em alguns lugares os salários do campo foram rebaixados em 50% ou mais. Ao mesmo tempo, a inflação e a escassez de alimentos elevou até o céu o custo de vida”.

Em meio a este cenário de devastação e degeneração, Ramon Blanco, sócio do jornal golpista “El Imparcial”, colunista da “Tribuna da Imprensa”, escreve em 24 de setembro de 1954 que “há muita gente que tem estranhado muitíssimo que não se organizasse, até agora, uma homenagem pública ao embaixador dos Estados Unidos da América, senhor John Peurifoy, como demonstração de agradecimento e carinho por sua magnífica atuação e colaboração para vencer a administração que acaba de ser derrotada”.

A “deificação lisonjeira” expressa pelo escriba pró-imperialista, conclui Plínio de Abreu Ramos, “vai ao cúmulo de louvor ao espião alegre e libertino com a mesma solicitude do serviçal Lebel que, ao beijar os calções rendados de Luiz XV, exclamava enternecido: “Senhor, podeis contar com a minha canalhice!”

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Magda arma leilões e admite que depois terá emprego em petroleira

Carlos Lopes, www.horadopovo.com.br

Diretora da ANP puniu fiscais que se atreveram a multar a OGX de Eike Baptista por irregularidade

ANP age contra a Petrobrás em favor do cartel transnacional
Os leilões da 11ª Rodada, na qual a Agência Nacional do Petróleo (ANP) pretende colocar a retalho 289 blocos para exploração petrolífera, estão marcados para os próximos dias 14 e 15. Às vésperas da hora, disse a senhora Magda Chambriard, diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP): " Na última reunião de diretoria, vimos os planos de avaliação da Petrobras, que são longos, enquanto os da OGX levam 5, 8 meses. Gostaria de ter mais Eikes’ nos leilões, ele pelo menos entrega produção". Magda considera a empresa do sr. Eike Batista um verdadeiro fenômeno: "a OGX já furou mais de cem poços. Ela investe mais do que as outras, até mais do que devia, e faz as coisas mais rápido que as outras".
Comparar a OGX com a Petrobrás é como comparar a Enterprise, nave estelar do capitão Kirk, com a carroça de boi que o Mazzaropi arrumou para alguns dos seus filmes. O leitor poderia perguntar se a senhora Magda sabe que a Petrobrás perfurou e mantém funcionando 15.437 poços produtores de óleo e gás, tal a fascinação da senhora diretora diante dos cem furos do Eike, quase todos, se verdadeiros, mal sucedidos. Será que a senhora Magda acha que o mais importante é furar e não achar petróleo? Ou será que ela acha que o objetivo da perfuração é não achar petróleo para manter a atmosfera limpa? Infelizmente, leitor, não é apenas ignorância ou estupidez – embora estas não sejam pequenas.
Resumindo: a OGX extrai 8.027 barris de petróleo por dia, sendo 6.000 barris no mesmo poço (v. SDP/ANP, Boletim da Produção de Petróleo e Gás Natural, março 2013, pág. 15).
Agora, o que diria a senhora Magda se existisse uma multinacional que – como a Petrobrás – extraísse, em média, 2.598.000 barris de óleo equivalente (isto é, petróleo e gás) por dia (cf. Petrobras, Relatório de Sustentabilidade 2012, pág. 3)? Se existisse uma multinacional que produzisse – como a Petrobrás - 97% do petróleo extraído no Brasil (cf. SDP/ANP, Boletim cit., pág. 16)? Se essa multinacional tivesse desenvolvido – como a Petrobrás - os 20 campos petrolíferos de maior produção, os 20 campos com maior produção total de óleo e gás, os 30 poços com maior produção de petróleo, os 30 poços com maior produção de gás natural e os 30 poços com maior produção total do país em barris de óleo equivalente (cf. SDP/ANP, Boletim cit., págs. 18 a 22)?
Não é evidente que - se fosse uma multinacional – a senhora Magda estaria pulando e babando (desculpem-nos a imagem) diante de tanta eficiência? Não é óbvio que, se fosse uma multinacional que tivesse – como tem a Petrobrás - 16,4 bilhões de barris de reservas provadas, 109 sondas, 137 plataformas, 31.265 km de dutos, 237 navios, 15 refinarias, 18 termelétricas e 8.507 postos de distribuição de derivados do petróleo, a senhora Magda e outros capachos estariam em êxtase?
Mas, como é a Petrobrás, até o arremedo de petroleira do Eike é mais eficiente – pois foi isso o que disse a diretora-geral da ANP. Mas para impor esse estupro ideológico, político e moral, mesmo dentro da ANP está sendo preciso perseguir e eliminar quem não aceita ser estuprado.
PERSEGUIÇÃO
O que é mais surpreendente na rancorosa perseguição ao funcionário Pietro Adamo Sampaio Mendes - movida com rara ferocidade pela senhora Magda e seus pares – é o próprio funcionário. E não somente porque não se intimidou, entrou na Justiça - e publicou sua defesa no site da Associação dos Servidores da ANP (ASANP).
Pietro Mendes – citado nominalmente 10 vezes na nota da ANP, em que é tratado como "servidor", em tom de inconformismo por não ser um serviçal -, apesar de relativamente jovem (30 anos), é um pesquisador, ex-professor universitário da UFF, autor de vários trabalhos em sua especialidade, detentor de alguns prêmios profissionais, químico com especialização em petróleo e gás na Coppe/UFRJ, doutorado na Escola de Química da UFRJ (EQ/UFRJ) e cursos na Associação Brasileira de Química, no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, na Fundação Getúlio Vargas, na Escola de Administração Fazendária, no Institut Français du Pétrole, no American Bureau of Shipping, na Escola Nacional de Administração Pública e no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, entre outras instituições.
Pietro trabalhava há sete anos na Superintendência de Segurança Operacional e Meio Ambiente (SSM) da ANP, quando foi afastado da fiscalização por ter autuado a OGX, que operava sem uma válvula de segurança, a Downhole Safety Valve (DHSV), cuja função é fechar a saída de petróleo do poço, se houver algum acidente durante a extração.
"Eu estou aqui para fiscalizar. Se não puder fazer isso é melhor ficar em casa", disse Mendes, que recebeu o apoio dos colegas da SSM/ANP. Um deles, Kerick Robery Leite de Sousa, também foi afastado da fiscalização - por apoiar Mendes. No caso de Kerick, segundo este declarou à imprensa, foi a própria diretora-geral, Magda Chambriard, que tentou coagi-lo, após sua defesa do colega. "Eu vi que Pietro estava sendo pressionado e não apenas eu, toda a nossa área considerou que a autuação de Pietro estava correta", disse Kerick, químico que trabalha na ANP há três anos.
Por que essa perseguição a funcionários que só exerceram as suas funções – e estão sendo punidos apenas por exercerem as suas funções? Por que o assessor de imprensa da ANP publicou, na revista Época (24/04/2013), uma nota que termina com a ameaçadora frase "A ANP apurará a conduta do servidor", como se o problema fosse a autuação – e não a falta da válvula de segurança? Por que a senhora Magda disse, pelo contrário, que o problema não foi a autuação, mas, sim, que "era outro fiscal que estava responsável pela fiscalização. Não tinha por que outro funcionário interferir" - quando, na verdade, Pietro Mendes recebeu o pedido de análise da OGX no dia 12 de novembro de 2012? Por que não foi concedido direito de defesa ao funcionário (cf. nota da Associação dos Servidores da ANP, ASANP, 24/04/2013)? Por que a diretora-geral não responde às solicitações da Associação dos Servidores da ANP, que desde o dia 10/04 solicita uma entrevista para discutir, entre outros, o caso dos funcionários afastados?
LIMA
Há poucas semanas, a HRT, uma empresa controlada por dois fundos especulativos – o Discovery Capital Management LLC, com sede nos EUA, e o Southeastern Asset Management, com sede em Singapura – e que age como fachada da BP, conseguiu ser classificada como "operadora A" - para poder operar em águas profundas – pela ANP. A experiência da HRT nesse assunto, segundo a própria diretora-geral, é ter cavado "meio poço na Namíbia": "Estou discutindo com a Comissão Especial de Licitação esta questão. Questionando a minha área de segurança operacional para saber se perfurar meio poço é ou não considerado experiência. Isso é experiência no mar? O tempo é muito curto".
A HRT tem como consultor o sr. Haroldo Lima, que antecedeu Magda na diretoria-geral da ANP. Lima deve ter usado poderosos argumentos para convencer a ANP e a senhora Magda, pois, em seguida, disse ela que "o que houve foi uma diferença de interpretação do edital do leilão feita pela CEL (Comissão Especial de Licitação)". Quanto ao lobby de ex-diretores, como Lima, diz Magda que é natural: "Eu também, daqui a algum tempo, vou estar em alguma petroleira".



terça-feira, 2 de abril de 2013

Novo desastre da Exxon inunda com petróleo cidade dos EUA

Em 2011 foi a vez do famoso Parque de Yellowstone ter seu rio poluído após ruptura de duto da companhia

Leonardo Wexell Severo, no jornal Hora do Povo

Cerca de 10 mil barris de petróleo bruto da transnacional ExxonMobil vazaram... no final de sexta-feira (29) nos Estados Unidos após o rompimento do gasoduto Pegasus, próximo à cidade de Mayflower, no Arkansas, apontou a agência Reuters.
 
Durante 45 minutos foram mais de um milhão e meio de litros derramados, o que obrigou a retirada de moradores das proximidades. As imagens das televisões locais mostraram um rio de petróleo margeando a estrada e até a insuspeita – no caso - Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) avaliou o vazamento como de "grandes proporções". Conforme as autoridades, foi evitada até o momento a contaminação do lago Conway, principal reserva de água potável da região, e mais de 4 mil barris já teriam sido recolhidos pelas equipes de limpeza.
 
Os "acidentes" na ExxonMobil se multiplicam na mesma proporção em que mínguam os investimentos em segurança, denunciam ativistas. Em julho de 2011 um outro vazamento - segundo dados da própria empresa - contaminou com mil barris de petróleo o rio Yellowstone, no Estado de Wyoming, forçando as autoridades locais a evacuarem a população ribeirinha numa distância de 130 quilômetros. Neste caso, a corporação foi multada em US$ 1,7 milhão após a constatação de um erro grosseiro: a Exxon retardou o fechamento de uma válvula, o que aumentou em 2/3 a quantidade de petróleo dissipado.
 
"Maior empresa de capital aberto do mundo", a Exxon é também uma das gigantes quando se fala em contaminação. Entre os maiores vazamentos já registrados no planeta está o do petroleiro Exxon Valdez, ocorrido em 24 de março de 1989, quando a embarcação estadunidense se chocou contra um recife, no Alasca, despejando 42 mil toneladas de petróleo. A "maré negra" alcançou mais de seis mil quilômetros quadrados, sendo, até o momento, o maior desastre ambiental da história dos EUA.
 
GIGANTES DA CONTAMINAÇÃO
 
Ficando restrito apenas aos Estados Unidos e a um único ano, o de 1990, pudemos encontrar várias "marés negras" provocadas pela exploração predatória e sem qualquer segurança, seja para o meio ambiente, a população ou os trabalhadores das petroleiras. No dia 6 de março vazaram mais de 32 toneladas de hidrocarbonetos após a embarcação "Cibro Savannah" explodir e pegar fogo em Linden, no estado de New Jersey. Três meses depois, no dia 8 de junho, a embarcação "Mega Borg" derramou 20.500 toneladas de petróleo em Galveston, no sudeste do Texas. No dia 16 de setembro, o petroleiro "Júpiter" pegou fogo em City Bay, Michigan. As três tragédias, vale ressaltar, em um único ano.
 
Mais recentemente, em 20 de abril de 2010, a explosão da plataforma Deepwater Horizon, da British Petroleum (BP), provocou um vazamento no Golfo do México que se estendeu por diversas semanas, evidenciando a completa incapacidade da empresa em contê-lo diante da ausência de investimentos em segurança. O derramamento só foi controlado no dia 15 de julho, passados quase três meses e mais de 200 milhões de galões de óleo (cinco milhões de barris!) lançados ao oceano, com danos indescritíveis ao meio ambiente. Ao fechar um acordo para pagar a multa de US$ 4,5 bilhões, a transnacional foi forçada a reconhecer ser culpada pela obstrução do processo e, inclusive, de ter mentido ao Congresso a respeito do vazamento e da explosão, que matou 11 trabalhadores.

Hoje reduzido a quatro empresas, o cartel das Sete Irmãs, formado por ExxonMobil (fusão da Exxon com a Mobil), Chevron (Chevron, Gulf Oil e Texaco), dos Estados Unidos, e as europeias British Petroleum e a Royal Dutch Shell tem uma trajetória de crimes que vão muito além dos ambientais. Mesmo os venenosos e contaminantes "vazamentos" são uma gota no oceano comparados ao financiamento de golpes e ditaduras, assassinatos e guerras que o cartel tem promovido pelo controle das reservas de petróleo e gás do planeta.
Quem tem um "bilhete premiado" como o pré-sal - e conhece a ficha corrida dessas transnacionais - não pode desprezar as lições da história e insistir no erro dos leilões. Seria mutilar nossa soberania para premiar o crime.