Pensatempo: crescimento
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Rafael Correa é reeleito com ampla margem no Equador: “Seguiremos semeando a Pátria livre”


“Aqui já não mandam os banqueiros, o FMI e os meios de comunicação”, sublinhou o presidente equatoriano.

Leonardo Severo, Felipe Bianchi e Érika Ceconi, de Quito-Equador


O presidente do Equador Rafael Correa foi reeleito neste domingo (17) para mais um período de quatro anos. Com cerca de 70% das urnas apuradas pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Correa conta com 56,7% dos votos. O mandatário concorreu com sete candidatos, entre eles o ex-banqueiro de Guayaquil, Guillermo Lasso, que obteve 23,3%, e o ex-presidente Lucio Gutiérrez, destituído em 2005, que ficou em terceiro lugar com 6,6%. 

Informado da expressiva vitória, Correa foi até a sacada do palácio presidencial Carondelet e saudou a multidão que tomava a Praça da Independência com bandeiras equatorianas e do seu movimento, o Alianza País, que conforme projeções também elegeu a maioria da Assembleia Nacional.

“Esta revolução nada nem ninguém deterá. Estamos fazendo história. Estamos construindo a pátria pequena e a Pátria Grande [América Latina]”, destacou o presidente reeleito, sublinhando que “o melhor ainda está por vir”. “Não queremos nada para nós, somente deixar a nossos filhos e aos filhos dos nossos filhos um país cada vez melhor”.

São inúmeros os avanços conquistados pelo povo equatoriano ao longo dos últimos seis anos. Do ponto de vista econômico, vale citar que o Produto Interno Bruto do país cresceu aproximadamente 5% em 2012, contra apenas 1% do Brasil, situando-se como um dos países com maior crescimento no continente. Além disso, a pobreza foi reduzida significativamente: antes da Revolução Cidadã, 16,9% da população estava na linha da miséria. Este número caiu para 9,4% e, pela primeira vez, está em um digito.

O desemprego registra uma taxa de 4,2%, a mais baixa da história do país. Os investimentos aumentaram de forma expressiva: foram mais de oito mil quilômetros de estradas e oito centrais hidrelétricas construídas, além da Refinaria do Pacífico, avaliada em cerca de US$12 bilhões e já em estágio avançado. No campo social, Correa quadruplicou os investimentos em saúde e educação.

Já os portadores de deficiência tiveram uma série de políticas públicas: mais de 200 mil equatorianos recebem auxílio individual por parte do Estado, tornando o país uma referência na assistência e na inclusão social. O “Bônus de Desenvolvimento Humano”, que beneficiou 1,8 milhões de pessoas, contempla uma série de medidas assistenciais aos idosos e mães solteiras chefes de família.

FESTA EM QUITO

Mais tarde, na festa da vitória em frente à sede do Alianza País, Correa agradeceu mais uma vez o enorme apoio popular, lembrando que “este era um país onde um presidente era eleito com 23% dos votos”, e em que num período de apenas 10 anos passaram sete presidentes, três que o antecederam depostos por serem “traidores e entreguistas”.

Agradecendo o “resultado impressionante”, o presidente reeleito ressaltou que o recebia com “humildade”, mas também “com total responsabilidade e firmeza” para avançar o processo da Revolução Cidadã, defender a “Pátria livre e independente, com soberania e valentia”, e derrotar “os traidores”, “a direita ideológica”.

“O nosso compromisso é que o velho país jamais voltará aos anos de entreguismo, de terceirização e exploração laboral, de entrega do nosso patrimônio ao estrangeiro para pagar uma dívida imoral. Aqui já não manda o Fundo Monetário Internacional, os meios de comunicação, os países hegemônicos”, declarou. “Libertaremos o nosso país das amarras, transformaremos este Estado burguês e construiremos um Estado efetivamente popular”.

Correa reiterou o papel da ação coletiva para o êxito eleitoral, apontando que “era fácil fazer campanha” pela atuação da gestão governamental, pois floresceram nas diferentes regiões “rodovias, pontes, hospitais e unidades de polícia comunitária”.

Reafirmando seu “carinho, compromisso e entrega”, Correa citou nominalmente vários patriotas que tombaram para defender a sua vida, quando da tentativa de golpe em setembro de 2010. Emocionados, os presentes aplaudiam a cada nome caído na agressão, onde militares e guarda-costas foram assassinados a sangue frio por defenderem a ordem constitucional e o mandato presidencial. Diante do sangue derramado, recordou, os grandes conglomerados de comunicação usaram de caricaturistas, “piratas da tinta”, para fazer piada e abrandar o crime cometido.

“Expresso também minha gratidão aos migrantes”, frisou Correa, diante do mais do que expressivo apoio obtido no estrangeiro, onde a vitória do Alianza País foi de 8 por 1 e até 10 por 1. Milhares de famílias foram obrigadas a abandonar o país nos anos de neoliberalismo.

O presidente concluiu seu pronunciamento citando o libertador Simón Bolívar, Eloy Alfaro (líder nacionalista equatoriano), José Martí, Che Guevara e Dolores Cacuango, combatente indígena que lutou pelo direito à terra e à língua quíchua. “Fomos precedidos neste sonho de uma Pátria melhor. Que nos iluminem os exemplos destes heróis”.

Terminado o discurso, começou a verdadeira festa, com o presidente e vários ministros e parlamentares eleitos cantando e dançando no palanque, animando a celebração ao lado de conjuntos musicais. No repertório, clássicos da música popular latino-americana, incluindo Aquarela do Brasil, de João Gilberto, embalaram e aqueceram a fria noite quitenha.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Tombini comemora crescimento de 0%: “é a estabilidade”

De Carlos Lopes, na Hora do Povo

Mais juro, menos salário e corte no investimento público deram o tombo no crescimento de 7,5%

O sr. Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, emitiu comunicado sobre o crescimento (?) zero da economia no terceiro trimestre, conquista que deve-se, em parceria com o sr. Mantega, aos seus ingentes esforços e meridiana clarividência. Diz ele:
“Apesar da estabilidade no 3º trimestre de 2011, o crescimento de 3,7% do PIB nos últimos quatro trimestres confirma que a economia brasileira se encontra em um ciclo sustentado de expansão...”.

Tombini descobriu, portanto, que o nada é a essência da “estabilidade” – de onde se pode concluir que os cemitérios são o seu modelo econômico ideal – e que uma das consequências do nada, isto é, de não crescer, é prova de um “ciclo sustentado de expansão” (caramba!).

É verdade que nisso há outra, como diremos, vigarice. Ao usar um índice dos “últimos quatro trimestres”, ele incluiu, como prova do seu ciclo de expansão, o último trimestre do governo Lula.

Portanto, esses 3,7% são um angu de caroço com alhos, bugalhos e outras rimas menos decentes, que Tombini usa para falsificar a realidade.

Levando em conta apenas a gestão de Tombini no BC – isto é, o governo Dilma - esse número cai para 3,2%.

Que diferença isso faz, indagaria o leitor?

A diferença é que neoliberais, tucanos e outros anormais sempre disseram que o Brasil não podia crescer mais que 3,5% (apelidado de “PIB potencial”), o que foi desmoralizado pelo presidente Lula. Portanto, o crescimento do PIB neste ano está abaixo até mesmo do “PIB potencial” dos neoliberais. O número que Tombini cita, socorrendo-se indevidamente com a obra de Lula, serve para eludir a questão – isto é, esconder um vexame.

Em qualquer país do mundo, em qualquer biboca, crescimento zero do PIB – isto é, nenhum crescimento, nenhum valor criado a mais – costuma ser chamado de desastre, quando não de hecatombe ou catástrofe. Sobretudo quando não há nada de acidental nesse desastre e quando o país, há apenas 11 meses, crescia a +7,5%.

O motivo, obviamente, é que nada fica parado, nem a população, nem as suas necessidades, aliás, nem mesmo os cemitérios. Portanto, não há estabilidade alguma em ficar parado como um pato manco, esperando a hora de ser abatido.

Vejamos a variação do PIB no ano (ou, como dizem os estatísticos, “no acumulado do ano”):

4º trimestre/2010 – 7,5%;

1º trimestre/2011 – 4,2%;

2º trimestre/2011 – 3,8%;

3º trimestre/2011 – 3,2%.

Onde está a expansão do sr. Tombini? Pelo contrário, a economia está se retraindo, caindo em termos de criação de valor.

No entanto, isso não é um fenômeno da natureza. Sucintamente: esse é o resultado de uma política recessiva, com juros altíssimos e aumentos seguidos de suas taxas reais, estrangulamento dos investimentos e gastos públicos, arrocho no salário mínimo e no crédito - e, como consequência dos juros, um câmbio que subsidia hediondamente as importações contra a produção nacional.

O que se podia esperar dessa política de boicote ao país, senão, exatamente, o que está ocorrendo?

É ridículo – aliás, é um estelionato – o sr. Tombini cantar loas à “demanda doméstica (…) com o consumo das famílias registrando crescimento de 5,4% nos últimos quatro trimestres”.

Outra vez, ele incluiu na conta o último trimestre do governo Lula - para esconder que o crescimento do consumo das famílias caiu de 2% (4º trimestre/2010) para 0,5% (1º e 2º trimestres/2011) e, no último trimestre, foi negativo: -0,1%.

Mais falso ainda (se possível) é usar mais uma vez o último trimestre do governo Lula para concluir que “a Formação Bruta de Capital Fixo [a compra de máquinas e equipamentos] cresceu 7,0%”. Aqui, esconde-se que a taxa de investimento (FBCF/PIB) do terceiro trimestre foi inferior à taxa de investimento do mesmo período do ano passado.

Enquanto Tombini manipula números para dizer que seus aumentos de juros são “consistentes” (Deus!) com o “ciclo de expansão”, a produção da indústria de São Paulo caiu -7,6% em dois meses.
O sr. Mantega, que iniciou o ano dizendo que “o Brasil não era país para crescer 7%”, mas prometendo 5,5% de crescimento, declarou na terça-feira que está contente com 3,2%.
Aliás, é um mistério como o ilustre ministro da Fazenda tem o descaramento de dizer que “desaquecemos a economia quando foi necessário. O que não estava previsto era o agravamento da crise internacional”.

Quando foi necessário “desaquecer a economia”? E quem não estava prevendo “o agravamento da crise internacional”, algo absolutamente óbvio desde o ano passado? Porém, o sr. Mantega não vai se esconder atrás da “crise internacional”, como se fosse ela - e não ele e Tombini – a responsável pela derrocada da economia. Não vai, porque nós não vamos deixar. Não foi a “crise internacional” que derrubou o crescimento no ano de 7,5% para 3,2%, nem foi a crise que o reduziu a zero no 3º trimestre.

Mantega não chega a ser tão estulto quanto Tombini (também, esse é um recorde imbatível) a ponto de falar em público de “expansão”. Pelo contrário, diz ele que “agora ela [a economia] está em retração”, mas porque “fomos bem sucedidos e impedimos, com a moderação do consumo, que a inflação se difundisse na economia brasileira”.

Um tremendo sucesso: a indústria em quebra, graças ao sucesso do governo, quer dizer, do sr. Mantega, para combater uma inflação que estava nas bolsas de commodities de Chicago e Nova Iorque, onde os aumentos de juros não têm o mínimo efeito. Melhor seria – aliás, era o que havia a fazer, se esse combate à inflação fosse sério - defender o país da especulação externa. Mas isso é demais para ele.

Também não adianta Mantega usar a sua afamada imaginação para fugir da responsabilidade (“A piora da crise europeia causou uma expectativa na população. Imagino que isso inibiu alguns consumidores e investidores.”)

O sr. Mantega pode imaginar o que quiser. Mas a população (e a Europa) nada têm a ver com sua incompetência e submissão aos monopólios financeiros.