Pensatempo: imperialismo
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quinta-feira, 11 de junho de 2015

"A CIA contra a Guatemala" e o mural de Diego Rivera

Lanço no próximo dia 23 de junho, terça-feira, a partir das 18h30 na Martins Fontes, avenida Paulista, 509, meu novo livro “A CIA contra a Guatemala – Movimentos sociais, mídia e desinformação”, que traz artigos e reportagens sobre os crimes praticados pelo imperialismo no país centro americano. Ilustrada pelas belas fotografias de Joka Madruga e fortalecida com textos de Nim Sanik, Monica Fonseca Severo e Nicolas Honigesz, a publicação é fruto da minha convivência com revolucionários guatemaltecos durante um ano em Havana, de viagens a países vizinhos na América Central e de duas visitas recentes à Guatemala. Para compor a obra, escolhi dois poemas de Che Guevara e Pablo Neruda, ambos datados de 1954, ano em que a jovem democracia foi sangrentamente atacada em favor dos interesses da United Fruit Company, a Frutera, e deposto o presidente nacionalista Jacobo Árbenz.

Leonardo Wexell Severo

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Herói judeu e ministro de Mandela defende o “fim do apartheid de Israel”

28/11/2012

Ronnie Kasrils denuncia que “política de terrorismo de Estado de Israel é ainda pior do que a dos racistas sul-africanos”


Ronnie Kasrils, veterano combatente anti-apartheid
Em seu “Livro das perguntas”, Pablo Neruda indaga: “Por que as árvores escondem o esplendor de suas raízes?”. E como se respondesse à inquietação do poeta chileno e ignorasse a minha pergunta, Ronnie Kasrils, sul-africano de pais judeus de origem russa, nascido em Joanesburgo, veterano militante da causa antiapartheid e ex-ministro de Nelson Mandela, iniciou a entrevista exclusiva mostrando o longo caminho percorrido até o Fórum Social Mundial Palestina Livre em Porto Alegre. Da mãe, “doce, solidária e humanista”, aprendeu que a segregação a que os negros eram submetidos na África do Sul, com suas mais variadas formas de abuso e violência, “era o mesmo tipo de veneno imposto aos judeus na Europa”. Seu pai, um caixeiro viajante, vendedor de balas e doces para as segregadas e miseráveis comunidades negras, logo se converteria numa das principais lideranças sindicais da África do Sul. Desta combinação surgiu a indignação e o desejo da mudança. Daí até a militância clandestina, estimulado por uma prima comunista, foi um passo. A pele branca caiu como uma luva para as necessidades do movimento antiapartheid, até que foi banido de falar em público, de ir às fábricas, de reunir-se com mais de três pessoas e, finalmente, ficar desempregado. “A partir de então os racistas me deixaram com todo o tempo livre para me dedicar à luta contra o apartheid sul-africano”. Por sua luta, Ronnie Kasrils foi reconhecido como “herói judeu”, título cassado após ter se pronunciado “contra o apartheid de Israel”. Dirigente do Congresso Nacional Africano (ANC), Ronnie esteve reunido com Che Guevara, participou ativamente ao lado de vários combatentes pela libertação do Continente, como Agostinho Neto, de Angola, e Samora Machel, de Moçambique, e foi ministro de Nelson Mandela. “A política de terrorismo de Estado de Israel é ainda pior do que a do apartheid sul-africano, pois o regime de segregação racial não cercava os bantustões – locais onde os negros eram concentrados e apartados da sociedade branca -  nem os bombardeava com mísseis. Israel ergue muros e pratica crimes diariamente, covardemente, sem trégua, contra idosos, mulheres e crianças. Como disse certa vez um comandante militar israelense ao ver as barbaridades praticadas contra a aldeia de Deir Yassim, Israel está repetindo os nazistas”.
No auditório da Fecosul, Ronnie debaterá na próxima sexta-feira (30) sobre a Luta Palestina Anti-Apartheid – desafios, modelos e estratégias para a paz justa.
Abaixo, a íntegra da entrevista, que contou com a colaboração de Leonardo Vieira.

Como foi a sua participação na luta contra o apartheid na África do Sul?

A luta política contra o apartheid era pela não-violência, até que em março de 1960 um protesto pacífico em frente a uma delegacia de polícia foi banhado em sangue. O massacre deixou 69 mortos e representou um divisor de águas. Diante da brutal violência e repressão, discutimos que não havia outro caminho se não a resistência armada. Mandela me indicou como membro do comando de Durban e iniciamos ações que tinham como alvo os símbolos do apartheid, como os “Escritórios de classificação” onde os negros eram catalogados.

Catalogados de que forma?

Os racistas tinham 14 classificações diferentes para distinguir a inferioridade das raças. Iniciava pelo europeu e ia até o bantu, o mais negro de todos. Se uma pessoa dissesse que era branca eles olhavam as unhas, os dentes, como os nazistas faziam. Se um imigrante viesse do Líbano, devido à colonização europeia, era classificado como branco, se viesse da Síria era colorido. Atacávamos estes escritórios de classificação com uma regra: nunca matar ninguém. O objetivo era colocar abaixo os símbolos da opressão e do racismo. Isso inspirou muita gente a lutar e serviu como alerta ao regime de que era preciso mudar.

Foi um longo período de resistência até a realização das eleições e a vitória de Mandela em 1994.

Foram décadas de muita luta, pois os racistas não estavam dispostos a ceder. A repressão se desatou forte, com muitos militantes presos, torturados até a morte ou exilados. Neste período contamos com grande solidariedade de Angola e Moçambique para reconstruir nossa rede clandestina, que era então a única forma possível de luta.

Quais foram os pilares desta reconstrução?

Foram quatro pilares. O primeiro foi o motor da luta política, o povo como força que lidera o processo, com o sindicalismo à frente, com atuação destacada de jovens, mulheres e grupos culturais. O segundo pilar foi a montagem da rede clandestina, desde a propaganda, com a entrega de panfletos, até a infraestrutura para os combatentes. O terceiro foi a ação armada, com referência na atuação de Mao Tsé-Tung e de Che Guevara. O quarto foi a solidariedade internacional.

E a reunião com Che Guevara?

Eu me encontrei com Che em Dar-es Salaam, na Tanzânia, numa reunião em que também estavam Agostinho Neto, de Angola, e Samora Machel, de Moçambique. A concepção do Che e dos cubanos era bolivariana, de todos os líderes assumirem o internacionalismo da causa e contribuírem para a libertação de cada país como se fosse o seu próprio. Era esta a sua pregação e foi este o seu compromisso até o fim.

Fazendo um paralelo com o momento da derrubada do apartheid na África do Sul, como vês o papel da solidariedade internacional contra a política de terrorismo de Estado e segregação levada a cabo pelo governo de Israel?

O movimento antiapartheid nos deu um tremendo apoio e impulso em vários momentos em que a situação interna estava extremamente complicada. Foi uma contribuição inestimável para enfraquecer e isolar os racistas, pois unia gente de todas as origens e classes. Vale lembrar que era um Estado muito poderoso, com mais de cinco milhões de brancos. Nenhuma colônia teve tantos brancos, com raízes no país há muitos anos, grande exército, economia industrial com abundantes recursos minerais. E os Estados Unidos e a Europa como defensores, com Ronald Reagan e Margaret Thatcher à frente. Ao mesmo tempo, os negros eram submetidos à pobreza mais abjeta, à ignorância profunda, com o regime estimulando a divisão por tribos para melhor manipular. Se você fosse mestiço ou indiano já era capataz, era assim que funcionava. Diante deste quadro interno, a solidariedade trazia esperança.

Neste momento, a adoção de uma política de boicote, desinvestimento e sanções não seria um caminho natural para chamar o governo israelense à razão?

Acredito na efetividade do boicote quando ele chega no bolso, pois é onde dói, ajudando as pessoas a abrirem os olhos e potencializar a resolução desta situação insustentável. Com o boicote e as sanções, os acadêmicos israelenses que se sentem naturalmente orgulhosos de suas conquistas repensarão o alto preço pago pelos palestinos. Se houver boicote de armas e sanções militares, estará minada a capacidade de agressão de Israel.

Conte um pouco da sua trajetória.

Eu tive de sair da África do Sul em 1963. Tive treinamento militar na União Soviética e em Cuba. Passei pela Tanzânia, Londres, Angola e Moçambique como chefe do braço armado do Congresso Nacional Africano até 1990. Fui ministro de Defesa Adjunto de Mandela até 1994, ministro de Águas e Florestamento em 1999, ministro da Segurança em 2004 até 2008, quando saí do governo. Sempre fui muito incisivo contra a agressão israelense, ainda mais por ser descendente de judeus, e me tornei um alvo para Israel e para os sionistas. Visitei oficialmente a Cisjordânia e a Faixa de Gaza onde pude ver o quão absurda é a manutenção deste criminoso regime de segregação.

O que sentiste ao visitar os territórios ocupados por Israel?

Tanto em Gaza quanto na Cisjordânia senti uma espécie de dejà   vu, era como se estivesse de volta ao regime de apartheid. Na verdade, o que é feito contra os palestinos é ainda pior do que o apartheid sul-africano. Porque por mais brutal que fosse o regime, na África do Sul não se bombardeavam os bantustões, nunca houve o uso de helicópteros, mísseis e tanques. Nas operações, os racistas quebravam portas, prendiam, torturavam, mas isso durava duas semanas, nunca indefinidamente, como acontece na Palestina. Estive em 2004 com Yasser Arafat na sede da presidência da Autoridade Nacional Palestina (ANP) em Ramalah e ele me disse “não está vendo o meu bantustão?” Eu respondi que aquilo não era um bantustão e todos me olharam assombrados, como seu eu tivesse relativizando a gravidade da situação. Mas logo eu respondi que o local era pior do que um bantustão, porque eles nunca foram bombardeados nem nunca houve muros ao seu redor.

Uma segregação sem limites.

Qualquer ser humano de bom senso se sente extremamente chocado com tamanha selvageria. A situação é ainda mais impressionante quando tais crimes são reproduzidos por pessoas descendentes dos que sofreram o holocausto. Minha mãe, sempre muito doce, me ensinou os valores da vida e diante do que via sendo feito com os negros sul-africanos dizia que as pessoas, quando são submetidas a uma lavagem cerebral, se tornavam nazistas. Quando viu as crianças palestinas assassinadas na aldeia de Deir Yassin, em 1948, Cizling, um chefe israelense, disse: “Agora nos comportamos como nazistas”. É inadmissível que alguém com origem judaica perverta desta forma os ideais humanistas e passe a agir como monstro, praticando punições coletivas.

De que forma o Fórum pode contribuir para colocar um ponto final nesta sucessão de crimes?

O Fórum Social Mundial Palestina Livre tem um significado histórico de mobilização da sociedade, principalmente neste momento em que cresce a pressão internacional para que a ONU reconheça o Estado palestino como membro pleno. O fato de que esta solidariedade internacional seja um movimento pacífico mostra o seu intenso valor moral. O fim do apartheid de Israel contra os palestinos vai beneficiar não só os israelenses, mas também os judeus pelo mundo afora, a exemplo do que ocorreu quando caiu o regime de segregação na África do Sul. Muito diferente de representar uma ameaça, o fim do apartheid liberou os sul-africanos do peso das correntes de uma histeria militar e conquistou uma harmonia para toda a África, com progresso e segurança para todos. Tamanhos benefícios só podem vir com uma solução justa. Vale lembrar que na era dourada do Islã e do judaísmo houve uma convivência harmoniosa, de elevada solidariedade.

Da mesma forma que Estados Unidos, Inglaterra e Israel se alinhavam na ONU para blindar o regime de apartheid da África do Sul, hoje os EUA e a Europa Ocidental se empenham na defesa dos crimes do Estado de Israel. Qual a sua leitura sobre isso?

O interesse econômico e geopolítico explica as razões de tamanho apoio dos EUA e dos países da Europa Ocidental, mas os israelenses têm de repensar essa dependência total, porque o mundo está mudando. Israel é muito pequena dentro de um mundo árabe enorme. Será melhor para todos que o governo de Israel saia deste jogo perigoso e busque uma convivência harmoniosa com a região.

Começou a contagem regressiva para o final do apartheid de Israel?


Atualmente converso com ministros do tempo do apartheid na África do Sul e pergunto: o que te fez mudar? E um ministro muito importante me respondeu que havia sido quando o banco Barclay, da Inglaterra, anunciou que iria sair do país. Então, disse ele, é o fim pra mim, não tem mais jeito. O início do fim ocorreu portanto quando o banco do colonialismo inglês, sofrendo as intensas pressões internas, com as mobilizações, e internacionais, com a onda de solidariedade, após 200 anos, deixou o país. Isso ajudou a mudar a corrente de opinião.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Samuel Pinheiro Guimarães: “Democratização da mídia é prioritária para a defesa da soberania”

Embaixador alerta para riscos decorrentes do atual “controle dos meios de comunicação pelas classes hegemônicas mundiais”
Leonardo Wexell Severo
“O controle dos meios de comunicação é essencial para o domínio da classe hegemônica mundial. Como esses meios são formuladores ideológicos, servem para a elaboração de conceitos, para levar sua posição e visão de mundo. Daí a razão da democratização da mídia ser uma questão prioritária”, afirmou o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães no debate “O Brasil frente aos grandes desafios mundiais”, realizado nesta terça-feira na Universidade Federal do ABC.
Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (2009-2010) e secretário geral do Itamaraty (2003-2009) no governo do presidente Lula, o embaixador defendeu a campanha do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) por um novo marco regulatório para o setor. Segundo ele, uma relevante contribuição à democracia e à própria soberania nacional, diante da intensa disputa política e ideológica numa “economia profundamente penetrada pelo capital internacional”.
Entre as iniciativas para garantir o surgimento e estabelecimento de novas mídias, apontou, está a “distribuição das verbas publicitárias do governo”, desconcentrando os recursos públicos e repartindo de forma justa e plural. “O critério de audiência, que vem sendo utilizado, privilegia o monopólio e o oligopólio”, sublinhou.
O embaixador também condenou o fato de que um mesmo grupo possa deter emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas – a chamada propriedade cruzada. Conforme Samuel, esta concentração acaba concedendo um poder completamente desmedido para alguns poucos divulgarem as suas opiniões como verdade absoluta. “Quando estados como a Argentina, o Equador e a Venezuela aprovam leis para democratizar a comunicação, a mídia responde com uma campanha extraordinária, como se isso fosse censura à imprensa”, lembrou.
MANIPULAÇÃO
Em função dos interesses da classe dominante, alertou o embaixador, a mídia hegemônica pode, sem qualquer conexão com a realidade, “demonstrar que um regime político da maioria é uma ditadura e realizar campanhas sistemáticas que permitam uma intervenção externa, com o argumento que determinado governo oprime os direitos humanos”. “Podem inclusive se aproveitar de manifestações pacíficas para infiltrar agentes provocadores que estimulem o confronto”, alertou.
Uma vez criado o caldo de cultura, soma-se à campanha de difamação e manipulação das consciências a intervenção militar, como aconteceu contra o governo de Muamar Kadafi. “Na Líbia houve a derrubada de um governo que lhes era contrário, não foi ação defensiva dos direitos humanos em hipótese nenhuma”, frisou. Na avaliação de Samuel, “os Estados Unidos têm um projeto muito claro de manter o seu controle militar e informativo”, que utilizam de forma alternada e complementar. “Contra os governos que contrariam frontalmente os seus interesses, os EUA têm um uma política declarada de ‘mudança de regime’. Para isso, sem grandes embaraços, qualquer movimento pode ser instrumentalizado”, assinalou.
Entre os muitos exemplos de manipulação citados pelo embaixador está o “esforço da política neoliberal para reduzir direitos”, utilizando-se da campanha pelo "aumento da competitividade”. ”O receituário que defendem é o de reduzir programas sociais, controle orçamentário e reduzir os benefícios da legislação trabalhista. Para isso disseminam ideias como a de que as empresas nacionais não são produtivas”, destacou Samuel.
Também condenando a manipulação da informação e o papel desempenhado por setores da mídia, o professor Paulo Fagundes Vizentini, coordenador do Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, considerou inadmissível que “os mesmos que bombardeiam e ocupam militarmente países soberanos venham agora dar lições de direitos humanos”.
“Antes era feio não ter opinião, hoje é ideológico, que mais se parece com fisiológico”, disse Vizentini, defendendo a afirmação do interesse público e da soberania nacional, e combatendo “os que querem que o país fique na segunda divisão, desde que sejam o capitão do time”.
O professor sublinhou o papel estratégico e singular proporcionado pela descoberta do pré-sal, tanto do ponto de vista energético, como geopolítico, e alertou para a necessidade de que o Brasil tenha os elementos de dissuasão para impedir que esse imenso patrimônio venha a ser apropriado militarmente pelos estrangeiros. “Para isso temos de enfrentar os espíritos fracos e colonizados. O colonialismo é o mais difícil de combater, porque está dentro da nossa cabeça”, frisou.
Para o secretário de Relações Internacionais do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Pedro Bocca, “o fortalecimento dos espaços de mídia dos movimentos sociais, como a TeleSur, a Alba TV e a TVT, com sua divulgação em canal aberto, são uma necessidade do momento para o avanço da própria integração”. “Nesse momento, o investimento do governo é essencial para combater a desinformação e garantir a efetiva democratização da comunicação e do país”, concluiu.
Acompanhe ao vivo e veja fotos e resumos dos debates pelo

 

 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Exterminem a todos os selvagens

Artigo de Mariano Vázquez, responsável pela Comunicação da Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA), sobre o imperialismo e suas atrocidades



 
Já não se fala de Kadafi. Foi assassinado por uma turba. Como memória de séculos, certa parte do mundo parece apontar seu curso de atrocidades para os mais faltosos com sua própria insígnia. Deem uma passada de olhos e vejam o catálogo de horrores dos “civilizados”.
Tiro da estante um de meus livros favoritos. O coração das trevas (1899), de Joseph Conrad, escrito ao calor do colonialismo belga no Congo. O conceito é simples: o direito das “raças superiores” a aniquilar às “raças inferiores” sem piedade nem consciência alguma. “Exterminai a todos os selvagens”, delira Kurtz. O direito divino de matar. A Europa “iluminada” que exterminou a povos inteiros de todas as latitudes, dos quatro continentes, em nome da civilização. Os afãs de riqueza inventaram justificativas políticas, filosóficas e científicas para endossar o extermínio massivo de todos os “selvagens”.

Amigo de Conrad, admirado por ele, Cunninghame Graham, escritor escocês de ideias socialistas, escreveu em 1898: “Independentemente de como atuemos pareceria que tão somente com nossa presença nos tornamos uma maldição para todos os povos que conservaram sua humanidade original”.

Sobram os exemplos: guanches, benianos, derviches, tasmanianos… O carimbo de exterminados caiu sobre suas culturas.

Como as marcas obscuras da colonização americana. Conquistar, roubar, matar, escravizar. Uns 70 milhões de habitantes havia na América até a chegada de Colombo. Cifra similar na Europa. Nos 300 anos seguintes a população do velho continente cresceu até 500%; a originária destas terras decresceu até 95%.

As técnicas de extermínio: Matança,fome, enfermidades, trabalho forçado.

Séculos e séculos depois, as novas organizações legitimadoras das cruzadas neocoloniais seguem sua faina. O Conselho de Segurança da ONU e seu braço armado, a OTAN, se jogaram rapidamente sobre a Líbia, a bombardearam sem piedade durante sete meses, até que em 20 de outubro conseguiram levantar o troféu mais apreciado: a cabeça de Muamar Kadafi. Um par de dias antes, a secretária de Estado norte-americano, Hillary Clinton, esteve em Trípoli e anunciava premonitoriamente que seu país queria o líder líbio “vivo ou morto”.

Kadafi o disse. Ele ia morrer combatendo apesar da descomunal força que se abateu sobre seu país. Cumpriu sua palavra. Como cão sarnento foi chutado e arrastado. Em sua terra natal. Em sua cidade de nascimento. Em Sirte. Um avião de combate francês Rafale, e um Predator norte-americano dispararam contra o comboio no que dizem que fugia, depois das forças especiais do Catar o entregarem na bandeja a uma turba de mercenários do Conselho Nacional de Transição líbio (CNT), que o golpeou até desfigurá-lo e logo lhe disparou na face. Sangue muito frio. Imagens pornográficas transmitidas pelas cadeias mundiais de televisão. A “justiça” imperial atua assim. Os portadores da luz. A democracia de manual.

Quando o butim é suculento há um só plano: o desejo do forte. Porque isso se sabe de antemão: a lei é para regular e submeter ao fraco.

Disse Hannah Arendt, em seu livro As origens do totalitarismo (1951): “O imperialismo necessita do racismo como a única desculpa possível de seus atos. Terríveis massacres e selvagens assassinatos no estabelecimento triunfal de tais métodos como políticas exteriores comuns e respeitadas”.

E um pouco mais de cem anos Herbert Spencer, em Parasitas Sociais (1850): “As forças que trabalham pelo resultado feliz do grande projeto não têm nenhuma consideração com os sofrimentos de menor importância, exterminam a estes setores da humanidade que estorvam em seu caminho”.

O historiador Sven Lindqvist, inspirado também em Conrad, liga o ventilador em Exterminai a todos os brutos: “A destruição europeia das ‘raças inferiores’ de quatro continentes abriu o caminho para que Hitler aniquilasse a seis milhões de judeus. A expansão mundial europeia acompanhada de uma desavergonhada defesa do extermínio, criou hábitos de pensamento e precedentes políticos que abriram caminho para novas atrocidades”.

À sombra das palmeiras(1907) foi escrita por Edward Wilhelm Sjöblom, sobre sua experiência no Congo em 1892. Disse sobre os negros: “O melhor deles é apenas bom para morrer como um porco”.

Voltemos a Lindqvist: “No meio do século XIX começaram os barcos a vapor a levar canhões europeus ao interior da Ásia e da África. Com eles se iniciava una nova época na história do racismo. Muitíssimos europeus interpretavam esta superioridade militar como uma superioridade intelectual ou, ainda, biológica”.

Balas e canhões: a guerra asséptica

O horror do fogo chegando desde o mar. As canhoneiras rugem desde o mesmísssimo inferno. O descreve Conrad em sua obra Um vagabundo das ilhas (1896): “A terra está escorregadia de sangue, as casas estão em chamas, as mulheres gritam, as crianças choram, os moribundos arquejam buscando ar. Morrem desvalidos, golpeados, antes de haver podido enxergar os seus inimigos”.

Se pergunta Lindqvist: “Que sentia o rei de Benin quando era perseguido nos bosques como um animal selvagem, enquanto sua capital estava envolta em chamas? Que sentiu o rei Ashante quando, arrastando-se, se aproximava das caixas de biscoitos para beijar as botas dos senhores britânicos? Ninguém lhe perguntou. Ninguém escutou aos que haviam sido submetidos pelos deuses das armas. Somente, alguma rara vez, lhes ouvimos dizer algo”.

A voz que ouvimos hoje é a uniformidade do poder. Cuidado, haverá novas notícias na hiperdemocracia imperial. Objetivo: Irã. O novo fetiche-obstáculo a exterminar. Novos selvagens devem desaparecer da face da terra. A luminária ocidental está focada na Ásia.

Pós data:

Para os europeus colonizadores da África os negros eram cachorros. Cães fracos de costelas ondulantes. Cães que nem porcarias mereciam comer. Matar a um cachorro não era delito, nem condenável. Era normal e necessário. Cães, negros. Negros, cães. Somabulano, líder africano da Rodesia, as terras da África do Sul que hoje se conhece como Zâmbia ou Zimbábue, disse em 1896: “Vocês chegaram. Vocês triunfaram. Os mais fortes tomam o país. Nós aceitamos seu domínio. Vivemos submetidos a vocês. Porém não como cães. Se temos que ser cães é melhor morrer. Nunca conseguirão converter a Amandabele em um cão. Podem nos eliminar, porém os filhos das estrelas jamais seremos cães”.
Tradução: Leonardo Severo